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CARTA ENCÍCLICA INSCRUTABILI DEI CONSILIO-do PAPA LEÃO XIII-SOBRE OS MALES DA SOCIEDADE MODERNA

CARTA ENCÍCLICA
INSCRUTABILI DEI CONSILIO
DE SUA SANTIDADE O
PAPA LEÃO XIII
 
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE OS MALES DA SOCIEDADE MODERNA,
SUAS CAUSAS E SEUS REMÉDIOS



Veneráveis Irmãos,
Saudação e Bênção Apostólica
.

INTRODUÇÃO
1. Apenas elevado, por um impenetrável desígnio de Deus, e sem o merecer, ao fastígio da Dignidade Apostólica, sentimo-Nos impelido por um vivo desejo e por uma espécie de necessidade a dirigir-Nos a Vós por carta, não somente para vos manifestar os sentimentos da Nossa profunda afeição, mas ainda para cumprir junto a Vós, chamados que fostes a compartilhar a Nossa solicitude, os deveres do cargo que Deus nos confiou, animando-vos a sustentar conosco os combates dos tempos atuais pela Igreja de Deus e pela salvação das almas.

I. OS MALES DA SOCIEDADE
2. Efetivamente, desde os primeiros instantes do Nosso Pontificado, o que se oferece aos Nossos olhares é o triste espetáculo dos males que de todas as partes acabrunham o gênero humano: é essa subversão geral das verdades supremas que são como que os fundamentos em que se apóia o estado da sociedade humana; é essa audácia dos espíritos que não podem suportar nenhuma autoridade legítima; é essa causa perpétua de dissensões de onde nascem as querelas intestinas e as guerras cruéis e sangrentas; é o desprezo das leis que regulam os costumes e protegem a justiça; é a insaciável cupidez das coisas que passam e o esquecimento das coisas eternas, levados ambos até esse furor insensato que por toda parte induz tantos infelizes a levarem sobre si mesmos, sem tremerem, mãos violentas; é a administração inconsiderada da fortuna pública, o esbanjamento, a malversação, como também a impudência dos que, cometendo as maiores espertezas, se esforçam por dar-se a aparência de defensores da pátria, da liberdade e de todos os direitos; é, enfim, essa espécie de peste mortal que, insinuando-se nos membros da sociedade humana, não deixa a esta repouso e lhe prepara novas revoluções e funestas catástrofes.

II. A CAUSA DESSES MALES
3. Ora, havemo-Nos convencido de que esses males têm a sua principal causa no desprezo e na rejeição dessa santa e augustíssima Autoridade da Igreja que governa o gênero humano em nome de Deus, e que é a salvaguarda e o apoio de toda autoridade legítima. Os inimigos da ordem pública, que perfeitamente o têm compreendido, pensaram que nada era mais próprio para subverter os fundamentos da sociedade do que atacar sem trégua a Igreja de Deus, do que torná-la odiosa e odiável por meio de vergonhosas calúnias, representando-a como inimiga da verdadeira civilização, do que enfraquecer-lhe a autoridade e a força por meio de feridas incessantemente renovadas, e do que derrubar o poder supremo do Pontífice romano, que é neste mundo o guarda e o defensor das regras eternas e imutáveis do bem e do justo. Daí, pois, saíram essas leis subversivas da divina constituição da Igreja Católica, leis cuja promulgação na maioria dos países temos de deplorar; daí promanaram o desprezo do poder espiritual, e os entraves opostos ao exercício do ministério eclesiástico, e a dispersão das Ordens religiosas, e o confisco dos bens que serviam para sustentar os ministros da Igreja e os pobres; daí, ainda, o resultado de haverem sido subtraídas à salutar direção da Igreja as instituições públicas consagradas à caridade e à beneficência; daí essa liberdade desenfreada de ensinar e de publicar tudo o que é mal, ao passo que, contrariamente, de toda maneira se viola e se oprime o direito da Igreja à instrução e à educação da juventude. E outro não foi o fim que os homens se propuseram apoderando-se do Principado temporal que a Divina Providência havia longos séculos concedera ao Pontífice romano para que este livremente e sem peias pudesse, para a salvação eterna dos povos, usar do poder que Jesus Cristo lhe conferiu.

III. REMÉDIOS PARA OS MALES
4. Se relembramos, Veneráveis Irmãos, esses funestos e inúmeros males, não é para aumentar a tristeza que por si mesmo faz nascer em Vós tão deplorável estado de coisas; mas é por compreendermos que, à vista disso, reconhecereis qual é a gravidade da situação que reclama o Nosso ministério e o Nosso zelo, e com que solicitude devemos, nestes tempos inditosos, trabalhar para defender e garantir com todas as Nossas forças a Igreja de Cristo e a dignidade da Sé Apostólica atacada por tantas calúnias.
Caridade fraterna
5. Bem claro e evidente é, Veneráveis Irmãos, que à causa da civilização faltam fundamentos sólidos se ela não se apóia nos princípios eternos da verdade e nas leis imutáveis do direito e da justiça, se um amor sincero não une entre si as vontades dos homens e não regula felizmente a distinção e os motivos dos seus deveres mútuos. Ora, quem ousaria negá-lo? Não foi a Igreja quem, pregando o Evangelho entre as nações, fez brilhar a luz da verdade no meio dos povos selvagens e imbuídos de superstições vergonhosas, e quem os reconduziu ao conhecimento do divino Autor de todas as coisas e ao respeito de si mesmos? Não foi a Igreja quem, fazendo desaparecer a calamidade da escravidão, revocou os homens à dignidade da sua nobilíssima natureza? Não foi ela quem, desfraldando sobre todas as plagas da terra o estandarte da Redenção, atraindo a si as ciências e as artes ou cobrindo-as com a sua proteção, por suas excelentes instituições de caridade, onde todas as misérias acham alívio, por suas fundações e pelos depósitos cuja guarda aceitou, em toda parte civilizou nos seus costumes privados e públicos o gênero humano, reergueu-o da sua miséria e formou-o, com toda sorte de desvelos, para um gênero de vida conforme à dignidade e à esperança humanas? E agora, se um homem de espírito são comparar a época em que vivemos, tão hostil à Religião e à Igreja de Jesus Cristo, com aqueles tempos tão felizes em que a Igreja era honrada pelos povos como uma Mãe, convencer-se-á inteiramente de que a nossa época cheia de perturbações e destruições se precipita direitinho e rapidamente para a sua perda, e que aqueles tempos foram tanto mais florescentes em excelentes instituições, em tranqüilidade da vida, em riqueza e em prosperidade, quanto mais submissos ao governo da Igreja e quanto mais observantes das suas leis se mostraram os povos. E, se os bens numerosos que acabamos de relembrar e que deveram o seu nascimento ao ministério da Igreja e à sua influência salutar, são verdadeiramente obras e glórias da civilização humana, muitíssimo longe está, pois, que a Igreja de Jesus Cristo abomine a civilização e a repila, visto ser a si, pelo contrário, que ela crê caber inteiramente a honra de lhe haver sido a nutriz, a mestra e a mãe.
6. Bem mais: essa espécie de civilização que, ao contrário, repugna às santas doutrinas e às leis da Igreja, não passa de uma falsa civilização, e deve ser considerada como um vão nome sem realidade. É esta uma verdade de que nos fornecem prova manifesta esses povos que não viram brilhar a luz do Evangelho; na vida deles podem-se ter vislumbrado algumas falsas aparências de educação mais cultivada, porém os verdadeiros e sólidos bens da civilização não prosperariam neles.
Respeito à autoridade da Igreja
7. Com efeito, não se deve considerar como civilização perfeita a que consiste em desprezar audaciosamente todo poder legítimo; e não se deve saudar com o nome de liberdade a que tem por cortejo vergonhoso e miserável a propagação desenfreada dos erros, o livre saciamento das cupidezes perversas, a impunidade dos crimes e dos malfeitores e a opressão dos melhores cidadãos de toda classe. Esses são princípios errôneos, perversos e falsos; não poderiam, pois, certamente ter força para aperfeiçoar a natureza humana e fazê-la prosperar, pois o pecado torna os homens miseráveis (Prov 14, 34); pelo contrário, absolutamente inevitável se torna que, após haverem corrompido as mentes e os corações, pelo seu próprio peso esses princípios lançam os povos em toda sorte de desgraças, que subvertem toda ordem legítima e conduzem assim, mais cedo ou mais tarde, a situação e a tranqüilidade pública à sua última perda.
8. Ao contrário, se contemplarmos as obras do Pontificado Romano, que pode haver de mais iníquo do que negar quanto os Pontífices Romanos têm nobremente e bem merecido de toda a sociedade civil? Nossos predecessores, com efeito, querendo prover à felicidade dos povos, empreenderam lutas de todo gênero, suportaram rudes fadigas e nunca hesitaram em se expor a ásperas dificuldades; de olhos fitos no céu, não abaixaram a fronte ante as ameaças dos maus, nem cometeram a baixeza de se deixarem desviar do seu dever, fosse pelas lisonjas, fosse pelas promessas. Foi esta Sé Apostólica quem apanhou os restos da antiga sociedade destruída e os reuniu juntos. Ela foi também o facho amigo que iluminou a civilização dos tempos cristãos; a âncora de salvação no meio das mais terríveis tempestades que tenham agitado a raça humana; o vínculo sagrado da concórdia que une entre si nações afastadas e costumes diversos; ela foi enfim o centro comum onde se vinha buscar tanto a doutrina da fé e da religião quanto os auspícios de paz e os conselhos dos atos a cumprir. Que mais? É uma glória dos Pontífices Romanos a de se haverem sempre e sem trégua oposto como uma muralha e um baluarte a que a sociedade humana tornasse a cair na superstição e na antiga barbárie.
9. Mas, oxalá que essa autoridade salutar nunca tivesse sido desprezada ou repudiada! Não teria então o poder civil perdido essa auréola augusta e sagrada que o distinguia, que a religião lhe dera, e que é só o que torna o estado de obediência nobre e digno do homem; não se teriam visto atear-se tantas sedições e guerras que foram a causa funesta de calamidades e morticínios; e tantos reinos, outrora tão florescentes, tombados hoje do fastígio da prosperidade, não estariam esmagados sob o peso de toda sorte de miséria. Temos ainda um exemplo das desgraças acarretadas pelo repúdio da autoridade da Igreja nos povos orientais que, quebrando os laços dulcíssimos que os uniam a esta Sé Apostólica, perderam o esplendor da sua antiga reputação, a glória das ciências e das letras e a dignidade do seu império.
10. Ora, esses admiráveis benefícios que a Sé Apostólica derramou sobre todas as plagas da terra, e de que fazem fé os mais ilustres monumentos de todos os tempos, foram especialmente sentidos por esta terra da Itália que tirou do Pontificado Romano frutos tanto mais abundantes quanto, em razão da sua situação, se achava ela mais próxima dele. É com efeito, aos Pontífices Romanos que a Itália deve reconhecer-se devedora da glória sólida e da grandeza com que brilhou no meio das outras nações. A autoridade e os desvelos paternais deles várias vezes a protegeram contra os vivos ataques dos inimigos, e foi deles que ela recebeu o alivio e o socorro necessário para que a fé católica fosse sempre integralmente conservada no coração dos Italianos.
11. Estes méritos dos Nossos predecessores, para não citar outros, são-Nos atestados sobretudo pela história dos tempos de S. Leão Magno, de Alexandre III, de Inocêncio III, de S. Pio V, de outros Pontífices, pelos cuidados e sob os auspícios dos quais a Itália escapou à última destruição de que estava ameaçada pelos bárbaros, conservou intacta a antiga fé, e, no meio das trevas e das barbarias de uma época mais grosseira, desenvolveu a luz das ciências e o esplendor das artes, e as conservou florescentes. São-Nos eles atestados ainda por esta santa cidade, sede dos Pontífices, a qual deles tirou esta grande vantagem não somente de ser a mais forte cidadela da fé, mas ainda de haver granjeado a admiração e o respeito do mundo inteiro, tornando-se o asilo das belas artes e a mansão da sabedoria. E, como a grandeza destas coisas foi transmitida à lembrança eterna da posteridade pelos monumentos da história, fácil é compreender que só por uma vontade hostil e por uma indigna calúnia, empregadas ambas em enganar os homens, é que se tem feito acreditar, pela palavra e pelos escritos, ter sido esta Sé Apostólica um obstáculo à civilização dos povos e à prosperidade da Itália.
Restauração do Poder Temporal dos Papas
12. Se, pois, todas as esperanças da Itália e do mundo inteiro estão colocadas nessa força, tão favorável ao bem e à unidade de todos, de que goza a autoridade da Sé Apostólica, e nesse vínculo tão estreito que une todos os fiéis ao Pontífice Romano, compreendemos que nada devemos ter mais a peito do que conservar religiosamente intacta a dignidade da Cátedra Romana e estreitar cada vez mais a união dos membros com a cabeça e a dos filhos com seu Pai.
13. É por isso que, para manter antes de tudo, tanto quanto está em Nosso poder, os direitos da liberdade desta Santa Sé, jamais cessaremos de combater para conservar à nossa autoridade a obediência que lhe é devida, para afastar os obstáculos que impedem a plena liberdade do Nosso ministério e do Nosso poder, e para conseguir o retorno àquele estado de coisas em que os desígnios da Divina Sabedoria haviam outrora colocado os Pontífices Romanos. E não é, Veneráveis Irmãos, nem por espírito de ambição, nem por desejo de domínio que somos impelidos a pedir esse retorno; mas sim pelos deveres do Nosso cargo e pelos compromissos religiosos do juramento que Nos liga: ademais, somos a isso impelido não somente pela consideração de que esse principado Nos é necessário para defender e conservar a plena liberdade do poder espiritual, como ainda porque tem sido plenamente verificado que, quando se trata do Principado temporal da Sé Apostólica, é a própria causa do bem público e da salvação de toda a sociedade humana que está em questão. Daí se segue que, em razão do dever do Nosso cargo, que nos obriga a defender os direitos da Santa Igreja, não Nos podemos dispensar de renovar e de continuar nesta carta as declarações e os protestos que o Nosso predecessor Pio IX, de santa memória, várias vezes formulou e renovou, tanto contra a ocupação do poder temporal como contra a violação dos direitos da Igreja Romana. Volvemos ao mesmo tempo Nossa voz para os príncipes e para os chefes supremos dos povos e instantemente lhes suplicamos, pelo augusto nome do Deus poderosíssimo, não repelirem o auxilio que a Igreja lhes oferece em momento tão necessário, cercarem amistosamente, como de desvelos unânimes, esta fonte de autoridade e de salvação, e a ela se prenderem cada vez mais pelos laços de um amor estreito e de um profundo respeito. Faça o céu que eles reconheçam a verdade de tudo o que havemos dito, e se persuadam de que a doutrina de Jesus Cristo, como dizia Santo Agostinho, é a grande salvação do país quando as pessoas conformam a ela seus atos (Ep. 138)! Possam eles compreender que a sua segurança e tranqüilidade, tanto como a segurança e a tranqüilidade públicas, dependem da conservação da Igreja e da obediência que lhes prestarem, e aplicar então todos os seus pensamentos e todos os seus cuidados a fazer desaparecer os males de que a Igreja e seu Chefe visível são afligidos! Possa daí, enfim, resultar que os povos que eles governam entrem na trilha da justiça e da paz, e gozem de uma era feliz de prosperidade e de glória.
Fidelidade à Santa Sé Apostólica
14. Querendo também, em seguida, manter cada vez mais estreita a concórdia entre todo o rebanho católico e seu Pastor supremo, com afeto particular aqui Vos concitamos, Veneráveis Irmãos, e vos exortamos calorosamente a, pelo Vosso zelo sacerdotal e pela Vossa vigilância pastoral, inflamardes do amor da religião os fiéis que Vos são confiados, a fim de que eles se prendam cada vez mais estreitamente a esta Cátedra de verdade e de justiça, a fim de que aceitem todos a doutrina dela com a mais profunda submissão de espírito e de vontade, e a fim de que rejeitem, enfim, absolutamente todas as opiniões, mesmo as mais difundidas, que souberem ser contrárias aos ensinamentos da Igreja. Sobre este assunto, os Pontífices Romanos Nossos predecessores, e em particular Pio IX, de santa memória, sobretudo no concilio do Vaticano, tendo incessantemente diante dos olhos estas palavras de S. Paulo: Vede que ninguém vos engane por meio da filosofia ou de um vão artifício que seja segundo a tradição dos homens ou segundo os elementos do mundo, e não segundo Jesus Cristo (Col 2, 8), todas as vezes que se tornou necessário não descuraram reprovar os erros que irrompiam e fulminá-los com as censuras apostólicas. Nós também, seguindo as pegadas dos Nossos predecessores, confirmamos e renovamos todas essas condenações do alto desta Sé Apostólica de verdade, e ao mesmo tempo pedimos vivamente ao Pai das luzes faça com que todos os fiéis, inteiramente unidos num mesmo sentimento e numa mesma crença, pensem e falem absolutamente como Nós. O Vosso dever, Veneráveis Irmãos, é empregardes os Vossos desvelos assíduos em espalhar ao longe no campo do Senhor a semente das celestes doutrinas, e em fazer penetrar oportunamente na mente dos fiéis os princípios da fé católica, para que lancem nela profundas raízes e nela se conservem ao abrigo do contágio dos erros. Quanto maiores esforços fazem os inimigos da religião para ensinar aos homens sem instrução, e sobretudo aos jovens, princípios que lhes obscurecem a mente e corrompem o coração, tanto mais é precioso trabalhar ardentemente não só para fazer prosperar um hábil e sólido método de educação, mas sobretudo para não se apartar da fé católica, no ensino das letras e das ciências e em particular da filosofia, da qual depende em grande parte a verdadeira direção das outras ciências, e que, longe de tender a derrubar a divina revelação, pelo contrário, se alegra de lhe aplanar o caminho e de defendê-la contra os seus assaltantes, como pelo exemplo e pelos escritos no-lo ensinaram o grande Agostinho e o Doutor Angélico, e todos os demais mestres da sabedoria cristã.
Reforma do Lar cristão
15. Todavia, necessário se torna que, para ser uma garantia da verdadeira fé e da religião, e uma salvaguarda da integridade dos costumes, essa excelente educação da juventude comece no próprio interior da família, dessa família que, infelizmente perturbada nos tempos atuais, só pode recuperar a sua liberdade por essas leis que o próprio divino Autor lhe fixou ao instituí-la na Igreja. Jesus Cristo, com efeito, elevando à dignidade de sacramento a aliança do matrimônio, que Ele quis fazer servir a simbolizar a sua união com a Igreja, não somente tornou mais santa a ligação dos esposos, como também preparou tanto aos pais como aos filhos meios eficacíssimos próprios para lhes facilitar, pela observância dos seus deveres recíprocos, a obtenção da felicidade temporal e eterna.
16. Infelizmente, depois que leis ímpias e sem nenhum respeito pela santidade desse grande sacramento o rebaixaram à mesma categoria dos contratos civis, tem sucedido que, profanando a dignidade do matrimônio cristão, cidadãos tenham adotado o concubinato legal ao invés das núpcias religiosas; esposos têm descurado os deveres da fé que se haviam prometido, filhos têm recusado aos pais a obediência e o respeito que lhes deviam, os laços da caridade doméstica têm-se afrouxado, e, o que é bem triste exemplo e mui prejudicial aos costumes públicos, a um amor insensato muitíssimas vezes têm sucedido separações funestas e perniciosas. Impossível é, Veneráveis Irmãos, que a vista dessa miséria e dessas calamidades lamentáveis não excite o Vosso zelo e não nos induza a, com cuidado e sem tréguas, exortar os fiéis confiados à Vossa guarda a prestarem ouvido dócil aos ensinamentos que se relacionam com a santidade do matrimônio cristão, e a obedecerem às leis da Igreja que regulam os deveres dos esposos e dos filhos.
Reforma dos costumes públicos
17. Assim é que conseguireis essa reforma tão desejável dos costumes e do modo de viver de cada homem em particular, porquanto, assim como de um tronco apodrecido não podem brotar senão galhos estragados e frutos pecos, assim também por um triste contágio essa funesta chaga que corrompe as famílias estende-se a todos os cidadãos e torna-se um mal e um defeito comum. Ao contrário, uma vez moldada a sociedade doméstica a uma forma de vida cristã, cada membro se acostumará pouco a pouco a amar a religião e a piedade, a detestar as falsas e perniciosas doutrinas, a praticar a virtude, a obedecer aos seus superiores e a reprimir essa procura insaciável do interesse puramente privado que tão profundamente abaixa e enerva a natureza humana. Um bom meio para realizar este objetivo será dirigir e incentivar essas pias associações que, mormente nestes tempos de agora, têm sido mais particularmente instituídas para favorecer os interesses católicos.
18. Em verdade, Veneráveis Irmãos, grandes coisas, coisas mesmo superiores às forças humanas são as que Nós assim abraçamos com os Nossos votos e com as Nossas esperanças; mas, como Deus fez as nações do mundo curáveis e fundou a sua Igreja para a salvação dos povos, prometendo assisti-la até à consumação dos séculos, temos a firme confiança de que o gênero humano, ferido por tantos males e calamidades, graças aos Vossos esforços acabará buscando a salvação e a prosperidade na submissão à Igreja e no magistério infalível desta Cátedra Apostólica.

CONCLUSÃO
Regozijo pela união e concórdia entre Bispos
19. E agora, Veneráveis Irmãos, antes de encerrarmos esta carta, sentimos a necessidade de participar-vos a Nossa alegria ao vermos a união admirável e a concórdia que reinam entre Vós e Vos unem tão perfeitamente a esta Sé Apostólica, e em verdade ficamos persuadidos de que essa perfeita união é não somente um baluarte inexpugnável contra os assaltos dos inimigos, mas é ainda um presságio feliz e próspero de tempos melhores para a Igreja; ela proporciona um grande alívio à Nossa fraqueza, e levanta, assim, de maneira feliz o Nosso espírito, ajudando-Nos a sustentar com ardor, no difícil múnus que havemos recebido, todas as fadigas e todos os combates pela Igreja de Deus.
Agradecimento pelas declarações de amor e obediência
20. Também não podemos separar dessas causas de esperanças e de alegria que acabamos de Vos manifestar, essas declarações de amor e de obediência que, nestes primórdios do Nosso pontificado, Vós, Veneráveis Irmãos, haveis formulado à Nossa humilde pessoa, e que também Nos têm sido feitas por tantos eclesiásticos e fiéis, provando assim pelas cartas enviadas, pelas larguezas recolhidas, pelas peregrinações realizadas e por tantas outras provas de piedade, que essa devoção e essa caridade que eles não haviam cessado de testemunhar ao Nosso digno Predecessor permaneceram tão firmes, tão estáveis e tão íntegras, que se não arrefeceram à vinda de um sucessor tão pouco digno dessa herança. À vista de testemunhos tão esplêndidos da fé católica, devemos humildemente confessar que o Senhor é bom e benevolente, e a Vós, Veneráveis Irmãos, e a todos esses filhos queridos de quem as havemos recebido, exprimimos os numerosos e profundos sentimentos de gratidão que inundam o nosso coração, cheios de confiança de que, na angústia e nas dificuldades dos tempos atuais, o Vosso zelo e o Vosso amor, bem como os dos fiéis, jamais Nos faltarão. Tão pouco duvidamos de que esses notáveis exemplos de piedade filial e de virtude cristã contribuam poderosamente para tocar o coração do Deus misericordiosíssimo, e para o fazer deitar um olhar de benevolência sobre o seu rebanho e conceder à Igreja a paz e a vitória. E, como estamos convencido de que essa paz e essa vitória Nos serão mais pronta e mais facilmente concedidas se os fiéis dirigirem constantemente a Deus preces e votos para lhas pedir, vivamente Vos exortamos, Veneráveis Irmãos, a excitardes com esse fim o zelo dos fiéis, concitando-os a empregarem como mediadora junto a Deus a Imaculada Rainha dos Céus, e como intercessores S. José, padroeiro celeste da Igreja, e os santos apóstolos Pedro e Paulo, a cujo poderoso patrocínio recomendamos a nossa humilde pessoa, todas as ordens da hierarquia eclesiástica, e todo o rebanho do Senhor.
Votos e bênção Apostólica
21. Finalmente, desejamos que estes dias em que festejamos o solene aniversário da ressurreição de Jesus Cristo sejam, para Vós e para todo o rebanho do Senhor, felizes, salutares e cheios de santa alegria, pedindo a Deus, que é tão bom, apague as faltas que havemos cometido e nos faça misericordiosamente remissão da pena que elas Nos mereceram, e isso pela virtude desse Sangue do Cordeiro imaculado que apague a sentença lavrada contra nós (Col 2, 14).
22. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, a caridade de Deus e a comunicação do Espírito Santo sejam com todos vós (2 Cor 13, 13), Veneráveis Irmãos, e é de todo coração que, a Vós e a cada um em particular, bem como aos Nossos caros filhos o clero e os fiéis de vossas Igrejas, concedemos a bênção apostólica como penhor da Nossa especial benevolência e como presságio da proteção celeste.
Dado em Roma, junto a S. Pedro, no dia solene de Páscoa, a 21 de abril do ano de 1878, primeiro ano do Nosso Pontificado.

LEÃO XIII, PAPA

CARTA ENCÍCLICA DALL'ALTO DELL'APOSTOLICO SEGGIO-do PAPA LEÃO XIII-SOBRE A MAÇONARIA NA ITÁLIA

CARTA ENCÍCLICA
DALL'ALTO
DELL'APOSTOLICO SEGGIO
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
 
AOS BISPOS, AO CLERO
E AO POVO DA ITÁLIA

SOBRE A MAÇONARIA NA ITÁLIA 

Veneráveis Irmãos e Amados Filhos,
Saúde e Bênção Apostólica.

1. Do alto do Trono Apostólico, aonde a Providência Divina Nos colocou para vigiar pela salvação de todas as nações, Nós olhamos sobre a Itália em cujo seio, por um ato de singular predileção, Deus estabeleceu a Sede de Seu Vigário, e da qual Nos vem no tempo presente muitas e amarguíssimas tristezas.

Não é nenhuma ofensa pessoal que Nos entristece, nem as privações e sacrifícios impostos a Nós pela atual condição das coisas, nem os ultrajes e escárnios que uma imprensa insolente tem todo o poder para atirar todos os dias contra Nós. Se somente a Nossa pessoa estivesse envolvida, e não a ruína à qual a Itália ameaçada em sua fé está se atirando, Nós suportaríamos estas ofensas sem reclamar, alegrando-Nos até por repetir o que um de Nossos mais ilustres Predecessores disse de si mesmo: "Se o aprisionamento do meu país não aumentasse a cada momento e a cada dia, quanto ao desprezo e escárnio de mim mesmo eu alegremente silenciaria."

Mas, além da independência e dignidade da Santa Sé, a própria religião e a salvação de toda uma nação estão envolvidas, de uma nação que desde os primeiros tempos abriu o seu seio à Fé Católica e sempre a tem zelosamente preservado. Por incrível que pareça, é verdade; a tal ponto chegamos, que devemos temer que esta nossa Itália perca até a fé.

Muitas vezes Nós soamos o alarme, para advertir do perigo; mas por este motivo Nós não pensamos que tenhamos feito o suficiente. Em face aos continuados e ainda mais furiosos assaltos que são feitos, Nós ouvimos a voz do dever chamando-Nos mais poderosamente do que antes para falar-vos novamente, Veneráveis Irmãos, aos seus Clérigos, e a todo o povo italiano.

Uma vez que o inimigo não dá trégua, então nem vós nem Nós podemos permanecer calados ou inertes. Pela Divina misericórdia Nós fomos constituídos guardiões e defensores da religião do povo confiado ao Nosso cuidado, Pastores e vigilantes sentinelas do rebanho de Cristo; e por este rebanho Nós devemos estar prontos, se necessário, a sacrificar tudo, até a própria vida. 

2. Nós não diremos nada de novo; pois os fatos não mudaram daquilo que eles eram, e Nós em outros tempos falamos sobre eles quando a oportunidade surgiu.

Mas Nós agora pretendemos recapitular estes fatos de algum modo, e agrupá-los em uma única imagem, de modo a deduzir para instrução geral as conseqüências que seguem deles. Os fatos são incontestáveis e aconteceram à clara luz do dia; não separados uns dos outros, mas tão conectados entre si em uma série de modo a revelar com a mais completa evidência um sistema do qual eles são a verdadeira operação e desenvolvimento. O sistema não é novo; mas a audácia, a fúria, e a rapidez
com as quais ele está sendo levado adiante agora, são novas. É o plano das seitas que está agora se desenrolando na Itália, especialmente no que se refere à religião Católica e à Igreja, com o propósito final e jurado, se isso fosse possível, de reduzi-la a nada.

Agora é desnecessário colocar as seitas Maçônicas em julgamento. Elas já estão julgadas; seus fins, seus meios, suas doutrinas, e sua ação, são todos conhecidos com indisputável certeza. Possuídos pelo espírito de Satanás, cujos instrumentos eles são, eles ardem como ele com um ódio mortal e implacável a Jesus Cristo e Sua obra; e eles se esforçam por todos os meios para derrubá-la e acorrentá-la. Esta guerra no momento presente se desenrola mais do que em qualquer outro lugar na
Itália, na qual a religião Católica se enraizou mais profundamente; e acima de tudo em Roma, o centro da unidade Católica, e a Sede do Pastor Universal e Mestre da Igreja. 

3. É bom traçar desde o início as diferentes fases deste combate. 

4. A guerra começou pela derrubada do poder civil dos Papas, cuja queda, de acordo com as intenções secretas dos verdadeiros líderes, mais tarde abertamente declarada, era, sob um pretexto político, para ser o meio de pelo menos escravizar, se não destruir, o supremo poder espiritual dos Pontífices Romanos.

Para que nenhuma dúvida restasse quanto ao verdadeiro objetivo desta guerra, seguiu-se rapidamente a supressão das Ordens Religiosas; e portanto uma grande redução no número de operários evangélicos para a propagação da fé entre os pagãos, e para o ministério sagrado e serviço religioso nos países Católicos. 

Mais tarde, a obrigação do serviço militar foi estendida aos clérigos, com o necessário resultado de que muitos e graves obstáculos foram colocados no recrutamento e devida formação até do Clero secular. Lançaram mãos das propriedades eclesiásticas, em parte por absoluto confisco, e em parte taxando-as com enormes cargas, de modo a empobrecer o Clero e a Igreja, e privar a Igreja do que é necessário para seu suporte temporal e para levar adiante instituições e obras auxiliares ao seu divino apostolado. Isto os próprios sectários abertamente declararam. Para diminuir a influência do Clero e de corpos clericais, apenas um meio eficaz precisa ser usado: tirar deles todos os seus bens, e reduzi-los à absoluta pobreza. Assim também a ação do Estado é em si mesma toda dirigida para erradicar da nação seu caráter religioso e Cristão. Das leis, e de toda a vida oficial, toda inspiração e idéia religiosa é sistematicamente banida, quando não diretamente atacada. Cada manifestação pública de fé e de piedade Católica é ou proibida ou, sob pretextos vãos, de mil maneiras impedida.

Da família são tiradas sua fundação e constituição religiosa pela proclamação do casamento civil, como ele é chamado; e também pela educação inteiramente leiga que agora é exigida, dos primeiros elementos até o mais alto ensino das universidades, de modo que as gerações em crescimento, tanto quanto isto possa ser afetado pelo Estado, devem crescer sem qualquer idéia de religião, e sem as primeiras noções essenciais de seus deveres para com Deus. Isto é colocar o machado na raiz. Nenhum meio mais universal e eficaz poderia ser imaginado de retirar a sociedade, as famílias, e os indivíduos, da influência da Igreja e da fé. Demolir o Clericalismo (ou Catolicismo) até os seus fundamentos e em suas próprias fontes de vida, especificamente, na escola e na família: esta é a autêntica declaração dos escritores Maçons. 

5. Será dito que isto não acontece somente na Itália, mas é um sistema de governo que os Estados seguem de modo geral. Nós respondemos, que isto não refuta, mas confirma o que Nós estamos dizendo sobre os desígnios e ação da Maçonaria na Itália. Sim, este sistema é adotado e levado adiante aonde quer que a Maçonaria use sua ação ímpia e pervertida; e, como a sua ação é largamente difundida, do mesmo modo este sistema anti-Cristão é largamente aplicado. Mas a aplicação se torna mais veloz e geral, e é levada a maiores extremos, em países aonde o governo está mais sob o controle da seita e melhor promove os seus interesses. Infelizmente, no momento presente a nova Itália está entre estes países. Não apenas hoje ela está sujeita à pervertida e maligna influência das seitas; mas já por algum tempo eles a têm tiranizado como quiseram, com absoluto
domínio e poder. Agora a direção dos assuntos públicos, no que diz respeito à religião, está totalmente em conformidade com as aspirações das seitas; e para atingir as suas aspirações, eles encontram auxiliadores declarados e instrumentos de prontidão naqueles que detém o poder público. Leis adversas à Igreja e medidas hostis a ela são primeiro propostas, decididas, e resolvidas, nos encontros secretos da seita; e se algo apresenta até a mínima aparência de hostilidade ou prejuízo à Igreja, é imediatamente recebido favoravelmente e levado adiante.

Entre os fatos mais recentes Nós podemos mencionar a aprovação do novo código penal, no qual o que era mais obstinadamente exigido, a despeito de todas as razões em contrário, eram os artigos contra o Clero, que forma para eles uma lei excepcional, e até condenam como criminosas certas ações que são deveres sagrados de seus ministros.

A lei quanto às obras de piedade, pela qual qualquer propriedade de caridade, acumulada pela piedade e religião de nossos ancestrais sob a proteção e a guarda da Igreja, foi retirada completamente da ação e controle da Igreja, foi por alguns anos levada adiante nos encontros da seita, precisamente porque iria infligir um novo ultraje à Igreja, diminuir sua influência social, e suprimir imediatamente um grande número de doações feitas para o culto divino.

Então veio aquela obra eminentemente sectária, a ereção do monumento ao renomado apóstata de Nola, o qual, com a ajuda e favor do governo, foi promovido, determinado, e levado adiante pela Maçonaria, cujo mais autorizado porta-voz não se envergonhou de reconhecer o seu propósito e declarar seu significado. Seu propósito era insultar o Papado; seu significado que, ao invés da Fé Católica, deve agora haver em substituição a mais absoluta liberdade de examinação, de crítica, de pensamento, e de consciência: e o que é entendido por tal linguagem na boca das seitas é bem conhecido.

O selo foi colocado pelas mais explícitas declarações feitas pelo chefe de governo, que eram no seguinte sentido: - Que o verdadeiro e real conflito, que o governo tem o mérito de entender, é o conflito entre a fé e a Igreja de um lado e a livre examinação e a razão do outro. Que a Igreja tente fazer como ela fez antes, acorrentar novamente a razão e o livre-pensar, e prevalecer; mas o governo neste conflito declara-se abertamente a favor da razão como contrária à fé, e toma sobre si mesmo a tarefa de fazer do Estado Italiano a expressão evidente desta razão e liberdade: uma triste tarefa, que agora há pouco foi enfaticamente reafirmada em uma ocasião semelhante. 

6. À luz de tais fatos e tais declarações como estas, é mais do que nunca claro que a idéia dominante que, em tudo que diz respeito à religião, controla o curso dos assuntos públicos na Itália, é a realização do programa Maçônico. Nós vemos quanto já foi realizado; nós sabemos quanto ainda resta a ser feito; e nós podemos prever com certeza que, enquanto os destinos da Itália estiverem nas mãos de governantes sectários ou de homens sujeitos às seitas, a realização do programa será forçada adiante, mais ou menos rapidamente de acordo com as circunstâncias, até o seu completo desenvolvimento.

A ação das seitas é no presente dirigida para atingir os seguintes objetivos, de acordo com os votos e resoluções passadas em suas mais importantes assembléias, - votos e resoluções inspirados por um ódio mortal à Igreja. A abolição nas escolas de qualquer tipo da instrução religiosa, e a fundação de instituições nas quais até as moças devem ser retiradas de toda influência clerical, qualquer que ela possa ser; porque o Estado, que deve ser absolutamente ateu, tem o inalienável direito e dever de formar o coração e os espíritos de seus cidadãos, e nenhuma escola deveria existir fora de sua inspiração e controle.

A aplicação rigorosa de todas as leis agora vigorando, que visam assegurar a absoluta independência da sociedade civil da influência clerical. A estrita observância de leis suprimindo corporações religiosas, e o emprego de meios para fazê-las efetivas. O controle de todas propriedades eclesiásticas, partindo do princípio que a sua propriedade pertence ao Estado, e a sua administração ao poder civil. 

A exclusão de todo elemento Católico ou clerical de todas administrações públicas, de obras de caridade, hospitais, e escolas, dos conselhos que governam os destinos do país, de uniões acadêmicas e semelhantes, de companhias, comitês, e famílias, - uma exclusão de tudo, em qualquer lugar, e para sempre. Ao invés, a influência Maçônica deve ser sentida em todas as circunstâncias da vida social, e se tornar mestra e controladora de tudo.

Por meio disto o caminho vai ser aplainado em direção à abolição do Papado; a Itália irá deste modo ser livre de seu implacável e mortal inimigo; e Roma, que no passado foi o centro da Teocracia universal no futuro será o centro da secularização universal, do qual a Carta Magna da liberdade humana deve ser proclamada à face do mundo inteiro. Estas são as autênticas declarações, aspirações, e resoluções, dos Maçons ou de suas assembléias. 

7. Sem exagero, esta é a presente condição e a futura perspectiva da religião na Itália. Encolher-se para não ver a gravidade disto seria um erro fatal. Reconhecer isto como é, confrontar isto com a prudência e fortaleza evangélicas, inferir os deveres que isto impõe sobre todos os Católicos, e sobre nós especialmente que como Pastores temos que vigiar sobre eles e guiá-los à salvação, é entrar nos olhares da Providência, fazer uma obra de sabedoria e zelo pastoral.

Tanto quanto diz respeito a Nós, o ofício Apostólico põe sobre Nós o dever de protestar em alta voz mais uma vez contra tudo que tem sido feito, está sendo feito, ou está sendo tentado na Itália para prejudicar a religião. Defendendo e guardando os direitos sagrados da Igreja e do Pontificado, Nós abertamente repelimos e denunciamos a todo o mundo Católico os ultrajes que a Igreja e o Pontificado estão continuamente recebendo, especialmente em Roma, e que nos atrapalham no governo da Igreja Católica, e adicionam dificuldade e indignidade à Nossa condição. Nós estamos determinados a não omitir nada de Nossa parte que possa servir para manter a fé viva e vigorosa entre o povo italiano, e para protegê-lo contra os assaltos de seus inimigos. Nós, portanto, fazemos um apelo, Veneráveis Irmãos, ao vosso zelo e vosso grande amor pelas almas, de modo que, possuídos com um sentido da gravidade e do perigo no qual elas incorrem, vós possais aplicar os remédios adequados e fazer tudo o que puderdes para dispersar este perigo. 

8. Nenhum meio que esteja em vosso poder deve ser neglicenciado. Todos os recursos da palavra, todo expediente na ação, todos os imensos tesouros de socorro e graça que a Igreja coloca em vossas mãos, devem ser usados, para a formação de um Clero instruído e cheio do espírito de Jesus Cristo, para a educação cristã dos jovens, para a extirpação de doutrinas malignas, para a defesa das verdades Católicas, e para a manutenção do caráter Cristão e do espírito de vida familiar. 

9. Quanto ao povo Católico, antes de mais nada é necessário que eles sejam instruídos quanto ao verdadeiro estado de coisas na Itália no que diz respeito à religião, o caráter essencialmente religioso do conflito na Itália contra o Pontífice, e os objetivos reais constantemente visados, para que eles possam ver pela evidência dos fatos os muitos modos pelos quais se conspira contra a sua religião, e possam se convencer do risco que eles correm de serem roubados e despojados do inestimável tesouro da fé.

Com esta convicção em suas mentes, e tendo ao mesmo tempo a certeza de que sem fé é impossível agradar a Deus e ser salvo, eles irão entender que o que agora está em jogo é o maior, para não dizer o único interesse, o qual cada um na terra está obrigado antes de todas as coisas, ao custo de qualquer sacrifício, a colocar fora de perigo, sob pena de miséria eterna.

Eles irão, ainda mais, facilmente entender que, neste tempo de aberto e furioso conflito, seria desgraçante para eles desertarem do campo e se esconderem. Seu dever é permanecer em seus postos, e abertamente mostrar serem verdadeiros católicos por suas crenças e ações, em conformidade com a sua fé. Isto eles devem fazer pela honra de sua fé, e a glória do Soberano Líder
cuja bandeira eles seguem; e para que eles possam escapar do grande infortúnio de serem repudiados no último dia, e de não serem reconhecidos como Seus pelo Supremo Juiz que declarou que qualquer um que não está com Ele está contra Ele.

Sem ostentação ou timidez, que eles dêem prova daquela verdadeira coragem que vem da consciência de cumprir um dever sagrado perante Deus e os homens. A esta franca profissão de fé os Católicos devem unir uma perfeita docilidade e amor filial para com a Igreja, um respeito sincero por seus Bispos, e uma absoluta devoção e obediência ao Pontífice Romano. Em uma palavra, eles irão reconhecer quão necessário é largar tudo que seja obra das seitas, ou que receba impulso ou favor da parte deles, como sendo sem dúvida alguma infectado pelo espírito anti-Cristão; e eles irão, ao contrário, devotar-se com atividade, coragem e constância, a obras Católicas, e às associações e instituições que a Igreja abençoou, e que os Bispos e o Pontífice Romano encorajam e mantêm. 

Além disso, vendo que o principal instrumento empregado por nossos inimigos é a imprensa, que em grande parte recebe deles sua inspiração e suporte, é importante que os Católicos se oponham à imprensa maligna por uma imprensa que seja boa, para a defesa da verdade, nascida do amor à religião, e para sustentar os direitos da Igreja. Enquanto a imprensa Católica estiver ocupada em deixar nus os desígnios pérfidos das seitas, em ajudar e defender as ações dos sagrados Pastores, e em defender a promover as obras Católicas, é dever os fiéis suportar eficazmente esta imprensa, - recusando ou cessando de favorecer de qualquer modo a imprensa maligna; e também diretamente, concorrendo, tanto quanto cada um possa, para ajudá-la a viver e florescer: e neste assunto Nós pensamos que até agora não foi feito o suficiente na Itália.

Finalmente, o ensinamento dirigido por Nós a todos os Católicos, especialmente nas encíclicas "Humanum genus" e "Sapientiae Christianae", deveria ser particularmente aplicado aos Católicos da Itália, e ser imprimido sobre eles. Se eles têm algo a sofrer ou a sacrificar para permanecer fiéis aos seus deveres, que eles tomem coragem no pensamento de que o Reino dos Céus sofre violência e é ganhado somente fazendo violência a nós mesmos; e que aquele que ama a si mesmo e o que é seu mais do que Jesus Cristo, não é digno dEle. O exemplo dos muitos campeões invencíveis que, em todos os tempos, generosamente sacrificaram tudo pela fé, e os especiais auxílios da graça que fazem o jugo de Jesus Cristo suave e Seu fardo leve, devem animar poderosamente a sua coragem e sustentá-los no glorioso combate. 

10. Até agora Nós temos considerado apenas o lado religioso do presente estado de coisas na Itália, uma vez que este é para Nós o mais essencial, e o assunto que eminentemente diz respeito a Nós em razão do ofício Apostólico que Nós temos. Mas é valioso considerar também o lado social e político, para que os italianos possam ver que não apenas o amor pela religião, mas também o mais nobre e sincero amor à pátria deveria incitá-los a resistir às ímpias tentativas das seitas. - Como uma prova convincente disto, é suficiente notar o tipo de futuro, na ordem social e política, que está sendo preparado para a Itália por homens cujo objetivo é - e eles não fazem segredo disto - combater uma guerra sem trégua contra o Catolicismo e o Papado. 

11. Já o teste do passado fala eloqüentemente por si mesmo. O que a Itália se tornou neste primeiro Período de sua nova vida, quanto à moralidade pública e privada, segurança interna, ordem e paz, riqueza nacional e prosperidade, tudo isto é conhecido por vós pelos fatos, Veneráveis Irmãos, melhor do que Nós poderíamos descrever em palavras. Os próprios homens cujo interesse seria esconder tudo isto, são constrangidos pela verdade a admiti-lo. Nós apenas diremos que, sob as presentes condições, uma necessidade triste mas real, as coisas não poderiam ser de outro modo: a seita Maçônica, com toda a sua jactância de um espírito de beneficência e filantropia, pode apenas exercer uma influência maligna - uma influência que é maligna porque ataca e esforça-se por destruir a religião de Cristo, a verdadeira benfeitora da humanidade. 

12. Todos sabem com que efeito salutar e em quantos modos a influência da religião penetra a sociedade. Está além de disputa que a sólida moralidade pública e privada dá honra e força aos Estados. Mas é igualmente certo que, sem religião não há verdadeira moralidade, pública ou privada.

Da família, solidamente baseada em seus fundamentos naturais, vem a vida, o crescimento, e a energia da sociedade. Mas sem religião, e sem moralidade, a parceria doméstica não tem estabilidade, e os laços familiares se tornam mais fracos e se rompem.

A prosperidade dos povos e das nações vem de Deus e de Suas bênçãos. Se um povo não atribui a sua prosperidade a Ele, mas se levanta contra Ele, e no orgulho de seu coração tacitamente diz a Ele que não tem necessidade dEle, sua prosperidade é apenas uma imagem, certa a desaparecer tão logo agrade ao Senhor confundir a orgulhosa insolência de Seus inimigos.

É a religião que, penetrando no fundo da consciência de cada um, faz com que ele sinta a força do dever e incita-o a cumpri-lo. É a religião que dá aos governantes sentimentos de justiça e amor para com seus súditos; que faz os súditos fiéis e sinceramente devotados aos seus governantes; que faz legisladores retos e bons, magistrados justos e incorruptíveis, soldados bravos e heróicos, administradores conscienciosos e diligentes. É a religião que produz concórdia e afeição entre marido e esposa, amor e reverência entre os pais e seus filhos; que faz os pobres respeitarem as propriedades dos outros, e faz com que os ricos façam um uso justo de sua riqueza. Desta fidelidade ao dever, e deste respeito pelos direitos dos outros vem a ordem, a tranqüilidade, e a paz, que formam uma parte tão importante da prosperidade de um povo e de um Estado. Tire a religião, e com ela todos estes benefícios imensamente preciosos desaparecerão da sociedade. 

13. Para a Itália, além disso, a perda seria sensível. Todas as suas glórias e grandezas, que por um longo tempo deram a ela o primeiro lugar entre as mais cultas nações, são inseparáveis da religião, que ou as produziu ou as inspirou, ou certamente as favoreceu, ajudou, e aumentou. Suas comunas nos falam de suas liberdades públicas: de suas glórias militares nós lemos em suas muitas memoráveis empresas contra os inimigos do nome Cristão. Suas ciências são vistas em suas universidades que, fundadas, mantidas, e privilegiadas pela Igreja, têm sido sua casa e teatro. Suas artes são mostradas nos inumeráveis monumentos de todo tipo com os quais a Itália está profusamente coberta. De suas instituições para auxílio dos sofredores, para os miseráveis e as classes trabalhadoras nós temos evidência em suas muitas fundações de caridade Cristã, nos muitos asilos estabelecidos para todo tipo de necessidade e infortúnio, e nas associações e corporações que cresceram sob a proteção da religião. A virtude e a força da religião são imortais porque a religião é de Deus. Ela tem tesouros de auxílio e eficacíssimos remédios, que podem ser maravilhosamente adaptados às necessidades de cada tempo e época. O que a religião tem sabido como fazer e tem feito em tempos passados, ela pode fazer também agora com uma virtude sempre fresca e vigorosa. Retirar a religião da Itália, é secar imediatamente a mais abundante fonte de inestimável auxílio e benefícios. 

14. Além disso, um dos maiores e mais formidáveis perigos da sociedade de hoje, é a agitação dos Socialistas, que ameaçam levantá-la de seus fundamentos. Deste grande perigo a Itália não está livre; e embora outras nações possam estar mais infestadas do que a Itália por este espírito de subversão e desordem, não é entretanto menos verdadeiro que até aqui este espírito está se espalhando largamente e aumentando a cada dia em força. Tão criminosa é sua natureza, tão grande o poder de sua organização e a audácia de seus desígnios, que é necessário unir todas as forças conservadoras, se quisermos impedir seu progresso e evitar com sucesso o seu triunfo. Destas forças a principal, e sobre todas a chefe, é aquela que pode ser fornecida pela religião e a Igreja: sem isto, as mais estritas leis, os mais severos tribunais, e até a força das armas, vão se provar sem utilidade e insuficiente. Como, em tempos antigos, a força material não adiantou contra as hordas dos bárbaros, mas somente o poder da religião Cristã, que entrando em suas almas apagou sua ferocidade, civilizou suas maneiras, e os fez dóceis à voz da verdade e à lei do evangelho; do mesmo modo contra a fúria das multidões sem lei não haverá defesa efetiva sem o salutar poder da religião. É somente este poder que, derramando sobre suas mentes a luz da verdade, e instilando em seus corações os sagrados preceitos morais de Jesus Cristo, pode fazê-los ouvir a voz da consciência e do dever, e, antes de restringir suas mãos, restringir suas mentes e acalmar a violência da paixão. 

Atacar a religião, é portanto privar a Itália de seu mais poderoso aliado contra um inimigo que se torna a cada dia mais formidável. 

15. Mas isto não é tudo. Como, na ordem social, a guerra contra a religião está se tornando mais desastrosa e destrutiva para a Itália, do mesmo modo, na ordem política, a inimizade contra a Santa Sé e o Pontífice Romano é para a Itália uma fonte dos maiores males. Mesmo quanto a isto, a demonstração não é necessária; é suficiente, para a completa expressão de Nosso pensamento, declarar em poucas palavras as suas conclusões. A guerra contra o Papa é para a Itália, internamente, uma causa de profunda divisão entra a Itália oficial e a grande parte dos italianos que são verdadeiramente Católicos: e toda divisão é uma fraqueza. Esta guerra priva nossa terra do suporte e da cooperação do partido que é mais francamente conservador; ela mantém no seio da nação um conflito religioso que nunca trouxe até agora qualquer bem público, mas até mesmo traz dentro de si os germes fatais do mal e do mais pesado castigo.

Externamente, o conflito com a Santa Sé, além de privar a Itália do prestígio e esplendor que ela com certeza teria vivendo em paz com o Pontificado, atrai sobre ela a hostilidade dos Católicos de todo o mundo, é uma causa de imensos sacrifícios, e pode em qualquer ocasião fornecer aos seus inimigos uma arma para ser usada contra ela. 

16. Este é o assim chamado bem-estar e grandeza preparado para a Itália por aqueles que, tendo seus destinos em suas mãos, fazem tudo que podem, de acordo com as ímpias aspirações das seitas, para derrubar a religião Católica e o Papado. 

17. Suponhamos, ao invés disto, que todas as ligações e conspirações com as seitas fossem deixadas de lado; que à religião e à Igreja, como o maior poder social, fosse permitida verdadeira liberdade e completo exercício de seus direitos.

Que feliz mudança viria sobre os destinos da Itália! Os males e os perigos que nós temos lamentado, como o resultado da guerra contra a religião e a Igreja, cessariam com o término do conflito; e ainda mais, nós veríamos mais uma vez florescer no solo escolhido da Itália Católica a grandeza e glória que a religião e a Igreja tem sempre abundantemente produzido. De seus poderes divinos nasceria espontaneamente uma reforma da moralidade pública e privada; os laços familiares seriam fortalecidos; e sob as influências religiosas, o sentido de dever e de fidelidade em seu cumprimento seria despertado em todos os níveis do povo para uma nova vida.

As questões sociais que agora ocupam tanto as mentes dos homens encontrariam seu caminho para a melhor e mais completa solução, pela aplicação prática dos preceitos evangélicos de caridade e justiça. A liberdade popular, não permitida a degenerar em licenciosidade, seria dirigida somente para bons fins, e se tornaria verdadeiramente digna do homem. As ciências, através daquela verdade da qual a Igreja é senhora, se levantariam rapidamente para uma mais alta excelência; e do mesmo modo as artes, através da poderosa inspiração que a religião deriva do alto, e que ela sabe como transfundir às mentes dos homens.

A paz sendo feita com a Igreja, a unidade religiosa e a concórdia civil seriam grandemente fortalecidas; a separação entre a Itália e os Católicos fiéis à Igreja cessaria, e a Itália iria deste modo adquirir um poderoso elemento de ordem e estabilidade. As justas demandas do Pontífice Romano sendo satisfeitas, e seus direitos soberanos reconhecidos, ele seria restaurado a uma condição de verdadeira e efetiva independência; e Católicos de outras partes do mundo, que, não através da influência exterior da ignorância do que desejam, mas através de um sentimento de fé e sentido do dever, levantam suas vozes em defesa da dignidade e liberdade do supremo Pastor de suas almas, não teriam mais razão para considerar a Itália como inimiga do Pontífice. 

Ao contrário, a Itália ganharia um maior respeito e estima das outras nações por viver em harmonia com a Sé Apostólica; pois não somente tem esta Sé conferido especiais benefícios aos italianos por sua presença em meio a eles, mas também, pela constante difusão dos tesouros da fé deste centro de bênção e salvação, ela fez o nome italiano grande e respeitado entre todas as nações. A Itália reconciliada com o Pontífice, e fiel à sua religião, seria capaz de dignamente emular a glória de seus antigos tempos; e de qualquer progresso real que haja na época atual ela receberia um novo impulso para avançar em seu glorioso caminho. Roma, preeminentemente a cidade Católica, destinada por Deus para ser o centro da religião de Cristo e a Sede de Seu Vigário, tem tido nisso a causa de sua estabilidade e grandeza através das momentosas mudanças das muitas épocas que passaram. Colocada novamente sob o pacífico e paternal cetro do Pontífice Romano, ela se tornaria novamente o que a Providência e o curso das épocas a fizeram - não encolhida à condição de capital de um reino, nem dividida entre dois poderes soberanos diferentes em um dualismo contrário à toda sua história; mas a digna capital do mundo Católico, grande com toda a majestade da Religião e do supremo Sacerdócio, uma mestra e um exemplo para todas as nações da moralidade e da civilização. 

18 Estas não são vãs ilusões, Veneráveis Irmãos, mas esperanças repousando sobre o mais sólido e verdadeiro fundamento. A sentença que tem sido por algum tempo comumente repetida, que os Católicos e o Pontífice são os inimigos da Itália, e aliados, por assim dizer, daqueles que derrubariam tudo, é um insulto gratuito e uma desavergonhada calúnia, ardilosamente espalhada por todos os lugares pelas seitas para disfarçar seus desígnios perversos, e para capacitá-los a continuar sem obstáculo sua odiosa obra de desnudar a Itália de seu caráter Católico. A verdade que é vista da maneira mais clara daquilo que nós dissemos até agora, é que os Católicos são os melhores amigos da Itália. Mantendo-se completamente distantes das seitas, renunciando ao seu espírito e às suas obras, lutando de todos os modos para que a Itália não perca a sua fé, mas a preserve em todo seu vigor - para que não lute contra a Igreja, mas seja sua fiel filha, - para que não ataque o Pontificado, mas se reconcilie com ele, - os Católicos dão prova por tudo isto de seu amor forte e verdadeiro pela religião de seus ancestrais e por sua terra.

Fazei tudo que puderdes, Veneráveis Irmãos, para difundir a luz da verdade entre o povo para que eles possam chegar finalmente ao entendimento de onde seu bem-estar e seu verdadeiro interesse se encontram; e para que se convençam que somente da fidelidade à religião e da paz com a Igreja e com o Pontífice Romano, eles podem esperar obter para a Itália um futuro digno de seu glorioso passado.

Para isto Nós chamaríamos a atenção, não daqueles afiliados às seitas, cujo propósito deliberado é estabelecer a nova edificação da Península Italiana sobre as ruínas da Religião Católica; mas de outros que, sem acolherem tais desígnios malévolos, ajudam estes homens em suas obras dando suporte à sua política; e especialmente dos jovens rapazes, que estão tão sujeitos a se extraviarem pela inexperiência e predominância do mero sentimento. Nós desejaríamos que todos se convencessem que o curso que agora é seguido não pode ser senão fatal para a Itália; e, em fazer este perigo mais uma vez conhecido, Nós somos movidos somente por uma consciência de dever e pelo amor à nossa terra. 

19. Mas, para a iluminação das mentes dos homens, nós devemos acima de tudo pedir pelo especial auxílio do céu. Portanto, à nossa unida ação, Veneráveis Irmãos, nós precisamos juntar a oração; e que seja uma oração geral, constante, e fervorosa: uma oração que irá oferecer gentil violência ao coração de Deus e fazê-lO misericordioso à Itália nosso país, para que Ele desvie dela toda calamidade, especialmente aquela que seria a mais terrível - a perda da fé. - Tomemos como nossa medianeira junto a Deus a gloriosíssima VIRGEM MARIA, a invencível Rainha do Rosário, que tem tão grande poder sobre as forças do inferno, e por tantas vezes fez a Itália sentir os efeitos de Seu amor maternal.

Recorramos também com confiança aos santos Apóstolos PEDRO e PAULO, que sujeitaram esta terra abençoada à fé, santificaram-na por seus trabalhos, e a banharam em seu sangue. 

20. Como uma garantia enquanto isso do auxílio que Nós pedimos, e como símbolo de Nossa mais especial afeição, recebei a Bênção Apostólica, que do fundo de Nosso coração Nós vos concedemos, Veneráveis Irmãos, ao vosso Clero, e ao povo italiano. 

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de outubro de 1890, o décimo terceiro ano de Nosso Pontificado.

 

PAPA LEÃO PP. XIII

CARTA ENCÍCLICA HUMANUM GENUS-do PAPA LEÃO XIII-SOBRE A MAÇONARIA

CARTA ENCÍCLICA HUMANUM GENUS DO SUMO PONTÍFICE
PAPA LEÃO XIII

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE A MAÇONARIA


1. O Gênero Humano, após sua miserável queda de Deus, o Criador e Doador dos dons celestes, "pela inveja do demônio," separou-se em duas partes diferentes e opostas, das quais uma resolutamente luta pela verdade e virtude, e a outra por aquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Uma é o reino de Deus na terra, especificamente, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; e aqueles que desejam em seus corações estar unidos a ela, de modo a receber a salvação, devem necessariamente servir a Deus e Seu único Filho com toda a sua mente e com um desejo completo. A outra é o reino de Satanás, em cuja possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o exemplo fatal de seu líder e de nossos primeiros pais, aqueles que se recusam a obedecer à lei divina e eterna, e que têm muitos objetivos próprios em desprezo a Deus, e também muitos objetivos contra Deus.
2. Este reino dividido Sto. Agostinho penetrantemente discerniu e descreveu ao modo de duas cidades, contrárias em suas leis porque lutando por objetivos contrários; e com sutil brevidade ele expressou a causa eficiente de cada uma nessas palavras: "Dois amores formaram duas cidades: o amor de si mesmo, atingindo até o desprezo de Deus, uma cidade terrena; e o amor de Deus, atingindo até o desprezo de si mesmo, uma cidade celestial."[1] Em cada período do tempo uma tem estado em conflito com a outra, com uma variedade e multiplicidade de armas e de batalhas, embora nem sempre com igual ardor e assalto. Nesta época, entretanto, os partisans (guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo, e estar combatendo com veemência unida, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida chamada os Maçons. Não mais fazendo qualquer segredo de seus propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o próprio Deus. Eles estão planejando a destruição da santa Igreja publicamente e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de despojar completamente as nações da Cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso Salvador. Lamentando estes males, Nós somos constrangidos pela caridade que urge Nosso coração a clamar freqüentemente a Deus: "Ó Deus, eis que Teus inimigos se agitam; e os que Te odeiam levantaram as suas cabeças. Eles tramam um plano contra Teu povo, e conspiram contra Teus santos. Eles disseram: 'vinde, destruamo-nos, de modo que eles não sejam uma nação'."[2]
3. Em uma crise tão urgente, quando tão feroz e tão forte assalto é feito sobre o nome Cristão, é Nosso ofício apontar o perigo, marcar quem são os adversários, e no máximo de Nosso poder fazer uma barreira contra seus planos e procedimentos, para que não pereçam aqueles cuja salvação está confiada a Nós, e para que o reino de Jesus Cristo confiado a Nosso encargo possa não só permanecer de pé e inteiro, mas possa ser alargado por um crescimento cada vez maior através do mundo.
4. Os Pontífices Romanos nossos predecessores, em sua incessante vigilância pela segurança do povo Cristão, foram rápidos em detectar a presença e o propósito desse inimigo capital tão logo ele saltou para a luz ao invés de esconder-se como uma tenebrosa conspiração; e, além disso, eles aproveitaram e tomaram providências, pois a eles isso competia, e não permitiram a si mesmos serem tomados pelos estratagemas e armadilhas armadas para enganá-los.
5. A primeira advertência do perigo foi dada por Clemente XII no ano de 1738 [3], e sua constituição foi confirmada e renovada por Bento XIV [4]. Pio VII seguiu o mesmo caminho [5]; e Leão XII, por sua constituição apostólica, Quo Graviora [6], juntou os atos e decretos dos Pontífices anteriores sobre o assunto, e os ratificou e confirmou para sempre. No mesmo sentido pronunciou-se Pio VIII [7], Gregório XVI [8], e, muitas vezes, Pio IX [9].
6. Tão logo a constituição e o espírito da seita maçônica foram claramente descobertos por manifestos sinais de suas ações, pela investigação de suas causas, pela publicação de suas leis, e de seus ritos e comentários, com a freqüente adição do testemunho pessoal daqueles que estiveram no segredo, esta sé apostólica denunciou a seita dos Maçons, e publicamente declarou sua constituição, como contrária à lei e ao direito, perniciosa tanto à Cristandade como ao Estado; e proibiu qualquer um de entrar na sociedade, sob as penas que a Igreja costuma infligir sobre as pessoas excepcionalmente culpadas. Os sectários, indignados por isto, pensando em eludir ou diminuir a força destes decretos, parcialmente por desprezo, e parcialmente por calúnia, acusaram os soberanos Pontífices que os passaram ou de exceder os limites da moderação em seus decretos ou de decretar o que não era justo. Este foi o modo pelo qual eles esforçaram-se para eludir a autoridade e o peso das constituições apostólicas de Clemente XII e Bento XIV, e também de Pio VII e Pio IX [10]. Entretanto, na própria sociedade, encontraram-se homens que relutantemente concordaram que os Pontífices Romanos tinham agido dentro de seu direito, de acordo com a doutrina e disciplina Católicas. Os Pontífices receberam a mesma concordância, em termos fortes, de muitos príncipes e chefes de governo, que tomaram como um dever ou delatar a sociedade maçônica à sé apostólica, ou por seu próprio acordo por leis específicas declará-la perniciosa, como, por exemplo, na Holanda, Áustria, Suíça, Espanha, Bavária, Savóia, e outras partes da Itália.
7. Mas, o que é da maior importância, o curso dos eventos demonstrou a prudência dos Nossos predecessores. Pois a sua providente e paternal solicitude não conseguiu sempre e em todo lugar o resultado desejado; e isto, ou por causa do fingimento e astúcia de alguns que eram agentes ativos na maldade, ou então da irrefletida leviandade do resto que deveria, em seu próprio interesse, ter dado ao assunto sua diligente atenção. Em conseqüência, a seita dos Maçons cresceu com uma velocidade inconcebível no curso de um século e meio, até que se tornou capaz, através de fraude ou audácia, de obter tal acesso em cada nível do Estado de modo a parecer quase a sua força governante. Este veloz e formidável avanço trouxe sobre a Igreja, sobre o poder dos príncipes, sobre o bem estar público, precisamente aquele grave dano que Nossos predecessores tinham previsto muito antes. Tal condição foi atingida que de agora de diante haverá grave razão para temer, não realmente pela Igreja - porque sua fundação é firme demais para ser derrubada pelos esforços dos homens - mas por aqueles Estados em que prevalece o poder, ou da seita da qual estamos falando ou de outras seitas não diferentes que curvam-se a ela como discípulas e subordinadas.
8. Por estas razões Nós, tão logo chegamos ao timão da Igreja, claramente vimos e sentimos ser Nosso dever usar Nossa autoridade em sua máxima extensão contra um mal tão vasto. Nós já por muitas vezes, conforme as ocasiões surgiram, atacamos alguns pontos principais dos ensinamentos que demonstraram de uma maneira especial a perversa influência das opiniões Maçônicas. Assim, em nossa carta encíclica, Quod Apostolici Muneris, Nós Nos esforçamos por refutar as monstruosas doutrinas dos socialistas e comunistas; depois, em outra começando com Arcanum, Nós penosamente defendemos e explicamos a verdadeira e genuína idéia da vida doméstica, da qual o matrimônio é o ponto de partida e a origem; e novamente, naquela que começa com "Diuturnum"[11], Nós descrevemos a idéia de governo político conforme os princípios da sabedoria Cristã, que é maravilhosa em harmonia, por um lado, com a ordem natural das coisas, e, por outro lado, com o bem-estar tanto dos príncipes soberanos quanto das nações. É agora Nossa intenção, seguindo o exemplo de Nossos predecessores, tratar diretamente a própria sociedade maçônica, todo o seu ensinamento, seus objetivos, e a sua maneira de pensar e agir, de modo a trazer mais e mais à luz seu poder para o mal, e fazer o que Nós pudermos para deter o contágio desta peste fatal.
9. Há vários corpos organizados os quais, embora diferindo em nome, em cerimonial, em forma e origem, são contudo tão unidos por comunhão de propósito e pela similaridade de suas principais opiniões, de modo a formar de fato uma só coisa com a seita dos Maçons, a qual é um tipo de centro ao qual todos eles se dirigem, e do qual todos eles retornam. Agora, estes não mais mostram um desejo de permanecer escondidos; pois eles realizam seus encontros à luz do dia e à vista do povo, e publicam seus próprios jornais; e contudo, quando completamente compreendidos, descobre-se que eles ainda retêm a natureza e os hábitos de sociedades secretas. Há muitas coisas como mistérios que é regra fixa esconder com extremo cuidado, não somente de estranhos, mas de muitos e muitos membros, também; tais como seus desígnios secretos e últimos, os nomes de seus maiores líderes, e certos segredos e encontros privados, assim como suas decisões, e os caminhos e meios de executá-las. Este é, sem dúvida, o objetivo das múltiplas diferenças entre os membros quanto a direito, cargo e privilégio, das distinções recebidas de ordens e graus, e da severa disciplina que é mantida.
Os candidatos são geralmente ordenados a prometer - e mais, com um especial juramento, a jurar - que eles não irão nunca, a nenhuma pessoa, em qualquer tempo ou de qualquer modo, dar a conhecer os membros, as senhas, ou os assuntos discutidos. Assim, com uma aparência externa fraudulenta, e com um estilo de fingimento que é sempre o mesmo, os Maçons, como os Maniqueístas de antigamente, esforçam-se, tanto quanto possível, para encobrir a si mesmos, e para não admitir testemunhas exceto seus próprios membros. Como uma maneira conveniente de disfarce, eles assumem o caráter de homens de letras e acadêmicos associados com o objetivo de aprender. Eles falam de seu zelo por um maior refinamento cultural, e de seu amor pelos pobres; e eles declaram que seu único desejo é a melhoria da condição das massas, e o compartilhamento com o maior número possível de pessoas de todos os benefícios da vida civil. Mesmo que estes propósitos fossem visados verdadeiramente, eles não são de modo algum o todo de seu objetivo. Ainda mais, para ser alistado, é necessário que os candidatos prometam e assumam ser daí em diante estritamente obedientes aos seus líderes e mestres com a mais completa submissão e fidelidade, e estar de prontidão para cumprir suas ordens à mais leve expressão de seu desejo; ou, se desobedientes, submeter-se aos mais penosos castigos e à própria morte. De fato, se algum é julgado ter traído as obras da seita ou ter resistido à ordens dadas, a punição é infligida neles não infreqüentemente, e com tanta audácia e destreza que o assassino muito freqüentemente escapa à detecção e punição de seu crime.
10. Mas fingir e desejar permanecer escondido; atar homens como escravos com as mais fortes correntes, e sem dar qualquer razão suficiente; usar homens escravizados aos desejos de outro para qualquer ato arbitrário; armar as mãos direitas de homens para o massacre após assegurar a impunidade pelo crime - tudo isso é uma enormidade diante qual a natureza recua. Por este motivo, a razão e a própria verdade tornam claro que a sociedade da qual nós estamos falando está em antagonismo com a justiça e a retidão natural. E isto se torna ainda mais claro, uma vez que outros argumentos, também, e muito evidentes, provam que ela é essencialmente oposta à virtude natural. Pois, não importando quão grande possa ser a inteligência do homem em disfarçar e a sua experiência em mentir, é impossível evitar os efeitos de qualquer causa de mostrarem, de algum modo, a natureza intrínseca da causa da qual eles vêm. "Uma boa árvore não pode produzir mau fruto, nem uma árvore ruim produzir bom fruto."[12] Agora, a seita maçônica produz frutos que são perniciosos e do mais amargo sabor. Pois, daquilo que Nós acima mostramos da maneira mais clara, aquele que é o seu propósito último força-a a se tornar visível - especificamente, a completa derrubada de toda a ordem religiosa e política do mundo que o ensinamento Cristão produziu, e a substituição por um novo estado de coisas de acordo com as suas idéias, das quais as fundações e leis devem ser obtidas do mero naturalismo.
11. O que Nós dissemos, e estamos para dizer, deve ser entendido com respeito à seita dos Maçons tomada genericamente, e tanto quanto ela compreende as associações aparentadas a ela e confederadas com ela, mas não dos seus membros individuais. Pode haver pessoas entre eles, e não poucos que, embora não livres da culpa de terem se enleado em tais associações, ainda assim não são eles mesmos parceiros em seus atos criminosos nem conscientes do objetivo último que eles estão se esforçando por alcançar. Do mesmo modo, algumas das sociedades afiliadas, talvez, de modo algum aprovem as conclusões extremas que eles iriam, se consistentes, abraçar como conseqüências necessárias de seus princípios comuns, se a sua própria maldade não os enchesse de horror. Alguns deles, novamente, são levados pelas circunstâncias dos tempos e lugares ou a visar coisas menores do que os outros normalmente tentam ou do que eles mesmos desejariam tentar. Eles não devem, entretanto, por esta razão, ser considerados como estranhos à federação maçônica; porque a federação maçônica deve ser julgada não tanto pelas coisas que ela tem feito, ou concluído, quanto pela soma de suas opiniões pronunciadas.
12. Agora, a doutrina fundamental dos naturalistas, que eles tornam suficientemente conhecida em seu próprio nome, é que a natureza humana e a razão humana deveria em todas as coisas ser senhora e guia. Eles ligam muito pouco para os deveres para com Deus, ou os pervertem por opiniões errôneas e vagas. Pois eles negam que qualquer coisa tenha sido ensinada por Deus; eles não permitem qualquer dogma de religião ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem qualquer mestre que deva ser acreditado por causa de sua autoridade. E desde que é o dever especial e exclusivo da Igreja Católica estabelecer completamente em palavras as verdades divinamente recebidas, ensinar, além de outros auxílios divinos à salvação, a autoridade de seu ofício, e defender a mesma com perfeita pureza, é contra a Igreja que o ódio e o ataque dos inimigos é principalmente dirigido.
13. Nos assuntos a respeito de religião que se veja como a seita dos Maçons age, especialmente aonde ela é mais livre para agir sem barreiras, e então que qualquer um julgue se realmente ela não deseja executar a política dos naturalistas. Por um longo e perseverante labor, eles esforçam-se para alcançar este resultado - especificamente, que o ofício de ensinar e a autoridade da Igreja tornem-se sem valor no Estado civil; e por esta mesma razão eles declaram ao povo e argumentam que a Igreja e o Estado devem ser completamente desunidos. Por este meio eles rejeitam das leis e da nação a saudável influência da religião Católica; e eles conseqüentemente imaginam que os Estados devem ser constituídos sem qualquer consideração pelas leis e preceitos da Igreja.
14. Nem eles pensam ser suficiente desconsiderar a Igreja - a melhor das guias - mas eles também a ferem por sua hostilidade. Realmente, para eles está dentro da lei atacar com impunidade as próprias fundações da religião Católica, em palavra, em escritos e em ensinamentos; e até os direitos da Igreja não são poupados, e os ofícios com os quais ela é divinamente investida não estão seguros. A mínima liberdade possível para administrar os assuntos é deixada à Igreja; e isto é feito por leis aparentemente não muito hostis, mas na realidade armadas e ajustadas para dificultar a liberdade de ação. Ainda mais, Nós vemos leis excepcionais e opressivas impostas sobre o clero, a fim de que eles possam ser continuamente diminuídos em número e meios necessários. Nós também vemos os remanescentes das possessões da Igreja restringidos pelas mais estritas condições, a sujeitados ao poder e ao desejo arbitrário dos administradores do Estado, e as ordens religiosas reviradas e espalhadas.
15. Mas contra a sé apostólica e o Pontífice Romano a contenda destes inimigos tem sido por um longo tempo dirigida. O Pontífice foi primeiro, por razões sem substância, atirado para fora da proteção de sua liberdade e de seu direito, o principado civil; logo, ele foi injustamente forçado em uma condição que era insuportável por causa das dificuldades levantadas de todos os lados; e agora o tempo chegou em que os partisans (guerrilheiros) da seita abertamente declaram, o que em segredo entre eles mesmos eles têm por um longo tempo planejado, que o poder sagrado dos Pontífices deve ser abolido, e que o próprio papado, fundado por direito divino, deve ser totalmente destruído. Se outras provas fossem desejadas, este fato seria suficientemente revelado pelo testemunho de homens informados, dos quais alguns em outros tempos, e outros recentemente, declararam ser verdadeiro a respeito dos Maçons que eles desejam especialmente atacar violentamente a igreja com irreconciliável hostilidade, e que eles nunca descansarão até que eles tenham destruído o que quer que os supremos Pontífices tenham estabelecido como religião.
16. Se aqueles que são admitidos como membros não são ordenados a abjurar por quaisquer palavras as doutrinas Católicas, esta omissão, muito longe de ser adversa aos desígnios dos Maçons é mais útil para os seus propósitos. Primeiro, deste modo eles facilmente enganam os ingênuos e os incautos, e podem induzir um número muito maior a se tornarem membros. Novamente, como todos que se oferecem são recebidos qualquer que possa ser sua forma de religião, eles deste modo ensinam o grande erro desta época - que uma consideração por religião deveria ser tida como assunto indiferente, e que todas as religiões são semelhantes. Este modo de raciocinar é calculado para trazer a ruína de todas as formas de religião, e especialmente da religião Católica, que, como é a única que é verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada como meramente igual às outras religiões.
17. Mas os naturalistas vão muito mais longe; pois, tendo, nas mais altas coisas, entrado em um curso completamente errôneo, eles são levados impetuosamente a extremos, ou por causa da fraqueza da natureza humana, ou porque Deus inflige sobre eles a justa punição do seu orgulho. Assim acontece que eles não mais consideram como certas e permanentes aquelas coisas que são totalmente entendidas pela luz natural da razão, tais como certamente são - a existência de Deus, a natureza imaterial da alma humana, e sua imortalidade. A seita dos Maçons, por uma similar trilha de erro, é exposta a estes mesmos perigos; pois, embora de um modo geral eles possam professar a existência de Deus, eles mesmos são testemunhas que eles não mantém todos esta verdade com total concordância da mente e com uma firme convicção. Nem eles escondem que esta questão sobre Deus é a maior fonte e causa de discórdias entre eles; de fato, é certo que uma discussão considerável sobre este mesmo assunto existiu entre eles muito recentemente. Mas, realmente, a seita permite grande liberdade aos seus membros juramentados por voto, de modo que para cada lado é dado o direito de defender a sua própria opinião, ou de que há um Deus, ou de que não há nenhum; e aqueles que obstinadamente argumentam que não há nenhum Deus são tão facilmente iniciados como aqueles que argumentam que Deus existe, embora, como os panteístas, eles tenham falsas noções acerca dEle: tudo que não é nada mais do que retirar a realidade, retendo algumas absurdas representações da natureza divina.
18. Quando esta maior e fundamental verdade foi derrubada ou enfraquecida, segue que aquelas verdades, também, que são conhecidas pelo ensinamento da natureza devem começar a cair - especificamente, que todas as coisas foram feitas pelo livre desejo de Deus o Criador; que o mundo é governado pela Providência; que as almas não morrem; que a esta vida dos homens sobre a terra sucederá outra em uma vida eterna.
19. Quando estas verdades foram eliminadas, as quais são os princípios da natureza e importantes para o conhecimento e para o uso prático, é fácil de ver o que irá ser da moralidade pública e privada. Nós não dizemos nada daquelas virtudes mais celestiais, as quais ninguém pode exercer ou mesmo adquirir sem um especial dom e graça de Deus; das quais necessariamente nenhum traço pode ser encontrado naqueles que rejeitam como desconhecida a redenção da humanidade, a graça de Deus, os sacramentos, e a felicidade a ser obtida no céu. Nós falamos agora dos deveres que têm a sua origem na retidão natural. Que Deus é o Criador do mundo e seu providente Governador; que a lei eterna exige que a ordem natural seja mantida, e proíbe que ela seja perturbada; que o fim último do homem é um destino muito acima das coisas humanas e além desta parada sobre a terra: estas são as fontes e estes são os princípios de toda justiça e moralidade.
Se eles forem removidos, como os naturalistas e Maçons desejam, imediatamente não haverá nenhum conhecimento quanto ao que constitui justiça e injustiça, ou sobre qual princípio a moralidade é fundada. E, em verdade, o ensinamento de moralidade que exclusivamente encontra o favor da seita dos Maçons, e em que eles argumentam que os jovens deveriam ser instruídos, é o que eles chamam "civil", e "independente", e "livre", especificamente, aquele que não contém qualquer crença religiosa. Mas, quão insuficiente tal ensinamento é, quanto deixa a desejar em firmeza, e quão facilmente movido por cada impulso da paixão, é suficientemente provado por seus tristes frutos, que já começaram a aparecer. Pois, aonde quer que, removendo a educação Cristã, este ensinamento começou a reinar mais completamente, aí a bondade e integridade da moral começou rapidamente a perecer, monstruosas e vergonhosas opiniões têm crescido, e a audácia dos atos malignos tem se elevado a um alto grau. Tudo isso é comumente lamentado e deplorado; e não poucos daqueles que de modo algum desejam fazê-lo são compelidos pela abundância de provas a dar não infreqüentemente o mesmo testemunho.
20. Ainda mais, a natureza humana foi manchada pelo pecado original, e é portanto mais disposta ao vício do que à virtude. Pois uma vida virtuosa é absolutamente necessária para restringir os movimentos desordenados da alma, e para fazer as paixões obedientes à razão. Neste conflito as coisas humanas devem freqüentemente ser desprezadas, e os maiores trabalhos e durezas devem ser executados, de modo que a razão possa sempre manter o seu domínio. Mas os naturalistas e Maçons, não tendo fé naquelas coisas que nós aprendemos pela revelação de Deus, negam que nossos primeiros pais tenham pecado, e conseqüentemente pensam que o livre desejo não é de modo algum enfraquecido e inclinado ao mal [13]. Pelo contrário, exagerando bastante o poder e a excelência da natureza, e colocando somente ali o princípio e regra da justiça, eles não podem nem mesmo imaginar que haja qualquer necessidade de uma constante luta e uma perfeita firmeza para dominar a violência e governo de nossas paixões.
Por isso nós vemos que homens são publicamente tentados pelos muitos encantamentos do prazer; que há jornais e panfletos sem moderação nem vergonha; que peças de teatro são notáveis pela licenciosidade; que desenhos para obras de arte são de uma maneira desavergonhada buscados nas leis de um assim chamado realismo; que os planos de uma vida fácil e delicada são cuidadosamente elaborados; que todas as seduções do prazer são diligentemente buscadas pelas quais a virtude possa ser ninada até adormecer. Depravadamente, também, mas ao mesmo tempo de um modo bastante consistente, fazem aqueles atos que eliminam a expectativa das alegrias do céu, e trazem para baixo toda a felicidade para o nível da mortalidade, e, de fato, a afundam na terra. Do que Nós dissemos o seguinte fato, estarrecedor não tanto por si mesmo quanto em sua aberta expressão, pode servir como confirmação. Pois, uma vez que geralmente ninguém está acostumado a obedecer homens hábeis e inteligentes tão submissamente como aqueles cuja alma está enfraquecida e quebrada pelo domínio das paixões, tem havido na seita dos Maçons alguns que têm simplesmente determinado e proposto que, engenhosamente e de propósito estabelecido, a multidão deveria ser saciada com uma licença sem limite para o vício, pois, quando isso tivesse sido feito, ela iria facilmente cair sob o seu poder e autoridade para quaisquer atos de audácia.
21. Quanto ao que se refere à vida doméstica nos ensinamentos dos naturalistas é quase tudo contido nas seguintes declarações: que o casamento pertence ao gênero dos contratos humanos, que pode ser legalmente revogado pelo desejo daqueles que o fizeram, que os governadores civis do Estado têm poder sobre o laço matrimonial; que na educação dos jovens nada deve ser ensinado em matéria de religião como opinião certa e fixada; e cada um deve ser deixado livre para seguir, quando chegar à idade, qualquer que ele preferir. Os Maçons concordam completamente com estas coisas; e não somente concordam, mas têm longamente esforçado-se para transformá-las em lei e instituição. Pois em muitos países, e aqueles nominalmente Católicos, é estabelecido que nenhum casamento deve ser considerado legal a não ser aqueles contraídos pelo rito civil; em outros lugares a lei permite o divórcio; e em outros todos os esforços são feitos para torná-lo legal tão logo quanto possível. Portanto, o tempo está rapidamente se aproximando em que os casamentos vão ser tornados em outro tipo de contrato - ou seja em uniões mutáveis e incertas que um capricho pode unir, e que do mesmo modo quando se modificar pode desunir.
Com a maior unanimidade a seita dos Maçons também esforça-se para tomar a si mesma a educação da juventude. Eles pensam que eles podem facilmente moldar às suas opiniões aquela idade macia e maleável, e torcê-la no que quer que eles desejem; e que nada pode ser mais adequado do que isto para permitir a eles levar a juventude do Estado a seguir seu próprio plano. Portanto, na educação e instrução de crianças eles não permitem qualquer participação, quer no ensinamento ou na disciplina, aos ministros da Igreja; e em muitos lugares eles têm procurado obter que a educação dos jovens esteja exclusivamente nas mãos de leigos, e que nada que trate dos mais importantes e mais sagrados deveres dos homens para com Deus deva ser introduzido na instrução sobre moral.
22. E ainda há as suas doutrinas sobre política, em que os naturalistas decretam que todos os homens tem o mesmo direito, e são em todos os aspectos da mesma e igual condição; que cada um é naturalmente livre; que nenhum tem o direito de comandar a outrem; que é um ato de violência requerer que homens obedeçam qualquer autoridade outra que aquela que é obtida deles mesmos. De acordo com isto, portanto, todas as coisas pertencem ao povo livre; o poder é exercido pela ordem ou permissão do povo, de modo que, quando o desejo do povo muda, os governantes podem ser legalmente depostos e a fonte de todos os direitos e deveres civis está ou na multidão ou na autoridade governante quando esta é constituída de acordo com as últimas doutrinas. É sustentado também que o Estado deve ser sem Deus; que nas várias formas de religião não há razão pela qual uma devesse ter precedência sobre outra; e que todas elas devem ocupar o mesmo lugar.
23. Que estas doutrinas são igualmente aceitáveis aos Maçons, e que eles desejariam constituir Estados de acordo com este exemplo e modelo, é excessivamente bem conhecido para requerer prova. Por algum tempo eles tem abertamente esforçado-se para tornar isto realidade com toda a sua força e recursos; e deste modo eles preparam o caminho para não poucos homens audaciosos que estão se apressando a fazer até as piores coisas, em seu esforço para obter igualdade e comunhão de todos os bens pela destruição de todas as distinções de título e propriedade.
24. O que, portanto, a seita dos Maçons é, e que trilha ela persegue, aparece suficientemente do sumário que Nós resumidamente demos. Seus dogmas principais estão tão grandemente e manifestamente apartados da razão que nada pode ser mais perverso. Desejar destruir a religião e a Igreja que o próprio Deus estabeleceu, e cuja perpetuidade Ele assegura por Sua proteção, e trazer após um lapso de dezoito séculos as maneiras e costumes dos pagãos, é notável insensatez e audaciosa impiedade. Nem é menos horrível nem mais tolerável que eles repudiem os benefícios que Jesus Cristo tão misericordiosamente obteve, não somente para os indivíduos, mas também para as famílias e a sociedade civil, benefícios os quais, mesmo de acordo com o julgamento e testemunho de inimigos da Cristandade, são muito grandes. Nesta empreitada insana e pervertida nós quase podemos ver o ódio implacável e o espírito de vingança com o qual o próprio Satanás está inflamado contra Jesus Cristo. - Do mesmo modo o estudado esforço dos Maçons para destruir as principais fundações da justiça e honestidade, e para cooperar com aqueles que desejarem, como se fossem meros animais, fazer o que eles quiserem, tende somente para a ignominiosa e desgraçada ruína do gênero humano.
O mal, também, é agravado pelos perigos que ameaçam a sociedade doméstica e civil. Como Nós demonstramos, no matrimônio, de acordo com a crença de quase todas nações, há algo sagrado e religioso; e a lei de Deus determinou que os matrimônios não devam ser dissolvidos. Se eles forem desprovidos do seu caráter sagrado, e feitos dissolúveis, problemas e confusão na família serão o resultado, a esposa sendo despojada de sua dignidade e as crianças deixadas sem proteção quanto aos seus interesses e bem-estar. - Não ter nos assuntos públicos qualquer cuidado pela religião, e nos arranjos e administração dos assuntos civis não ter maior consideração para com Deus do que se Ele não existisse, é uma imprudência desconhecida dos próprios pagãos; pois em seus corações e almas a noção de uma divindade e a necessidade de uma religião pública estavam tão firmemente estabelecidas que eles teriam pensado ser mais fácil ter uma cidade sem fundamentos do que uma cidade sem Deus. A sociedade humana, para a qual nós verdadeiramente por natureza somos formados, foi constituída por Deus, o Autor da natureza; e dEle, como de seu princípio e fonte, fluem em toda a sua força e permanência os incontáveis benefícios com os quais a sociedade abunda. Como todos e cada um de nós somos admoestados pela própria voz da natureza para cultuar a Deus em piedade e santidade, como o Doador da vida e de tudo que é bom nela, do mesmo modo e pela mesma razão, nações e Estados estão obrigado a cultuá-lO; e portanto é claro que aqueles que querem absolver a sociedade de todos os deveres religiosos agem não só injustamente mas também com ignorância e insensatez.
25. Como os homens são pela vontade de Deus nascidos para a união civil e sociedade, e como o poder de governar é um elo de união tão necessário à sociedade que, se ele é retirado, a sociedade necessariamente e imediatamente se desfaz, segue que dEle que é o Autor da sociedade veio também a autoridade de governar; assim quem quer que governe, é ministro de Deus. Portanto, como o fim e a natureza da sociedade humana requerem, é correto obedecer às justas ordens da autoridade legal, como é correto obedecer a Deus que governa todas as coisas; e é extremamente falso que o povo tenha como um poder jogar de lado sua obediência quando quer que lhe agrade.
26. De maneira semelhante, ninguém duvida que todos os homens são iguais uns aos outros, tanto quanto se refere à sua origem e natureza comuns, ou o fim último que cada um deve atingir, ou os direitos e deveres que são daí derivados. Mas, como as habilidades de todos não são iguais, como um difere do outro nos poderes da mente e do corpo, e como há realmente muitas dessemelhanças de maneiras, disposição, e caráter, é extremamente repugnante à razão esforçar-se por confinar todos dentro da mesma medida, e estender completa igualdade às instituições da vida civil. Assim como uma perfeita condição do corpo resulta da conjunção e composição de seus vários membros, os quais, embora diferindo em forma e propósito, fazem, por sua união e distribuição de cada um em seu próprio lugar, uma combinação bela para ser mantida, firme em força, e necessária para o uso; desse modo, na comunidade, há uma quase infinita dessemelhança de homens, como partes do todo. Se eles devem ser todos iguais, e cada um deve seguir seu próprio desejo, o Estado vai aparecer extremamente deformado; mas se, com uma distinção de graus de dignidade, de ocupações e empregos, todos habilmente cooperarem para o bem comum, eles irão apresentar a imagem de um Estado bem constituído e conformado à natureza.
27. Agora, dos perturbantes erros que Nós temos descrito os maiores perigos para os Estados devem ser temidos. Pois, sendo retirados o temor a Deus e a reverência pelas leis divinas, sendo desprezada a autoridade dos governantes, a sedição permitida e aprovada, e as paixões populares exacerbadas até o desprezo pela lei, sem qualquer freio a não ser o castigo, uma mudança e derrubada de todas as coisas necessariamente seguirá. Sim, esta mudança e derrubada é deliberadamente planejada e colocada em curso por várias associações de comunistas e socialistas; e aos seus propósitos a seita dos Maçons não é hostil, mas favorece grandemente seus desígnios, e tem em comum com eles suas principais opiniões. E se estes homens não se esforçam imediatamente e em todo lugar para levar à frente seus pontos de vista extremos, isso não deve ser atribuído ao seu ensinamento e sua vontade, mas à virtude daquela divina religião que não pode ser destruída; e também porque a parte mais sólida dos homens, recusando-se a ser escravizada às sociedades secretas, vigorosamente resiste às suas insanas tentativas.
28. Se todos os homens julgassem a árvore pelo seu fruto, e reconhecessem a semente e origem dos males que nos pressionam, e dos perigos que estão nos ameaçando! Nós temos que lidar com um inimigo enganoso e habilidoso, que, gratificando os ouvidos do povo e dos príncipes, os tem enleado por falas macias e por adulação. Entrando nas boas graças dos governantes sob a alegação de amizade, os Maçons tem se esforçado para fazê-los seus aliados e poderosos auxiliadores para a destruição do nome Cristão; e para que eles possam mais fortemente pressioná-los, eles têm, com determinada calúnia, acusado a Igreja de maliciosamente contender com os governantes em assuntos que afetam a sua autoridade e soberano poder. Tendo, por estes artifícios, assegurado a sua própria segurança e audácia, eles começaram a exercer grande peso no governo dos Estados: mas entretanto estão preparados para sacudir as fundações de impérios, para perturbar os governantes do Estado, para acusá-los, e para expulsá-los, tão freqüentemente quanto eles aparentam governar de modo diferente do que eles próprios poderiam ter desejado. De modo semelhante, eles têm por falsos elogios iludido o povo. Proclamando com uma alta voz a liberdade e prosperidade pública, e dizendo que era por causa da Igreja e dos soberanos que a multidão não era retirada de sua injusta servidão e pobreza, eles se impuseram sobre o povo, e, excitando-os por uma sede por novidades, eles os pressionaram a assaltar tanto a Igreja quanto o poder civil. Entretanto, a expectativa de benefícios que era esperada é muito maior do que a realidade; realmente, as pessoas comuns, mais oprimidas do que elas eram antes, estão privadas em sua miséria daquele consolo que, se as coisas tivessem sido arranjadas de um modo Cristão, eles teriam tido com facilidade e em abundância. Mas, quem quer que lute contra a ordem que a Divina Providência constituiu paga usualmente a penalidade por seu orgulho, e encontra-se com a aflição e a miséria quando eles insensatamente esperavam encontrar todas as coisas prósperas e conforme os seus próprios desejos.
29. A Igreja, se ela dirige os homens a prestar obediência principalmente a acima de tudo a Deus o soberano Senhor, é erradamente e falsamente considerada ou invejosa do poder civil ou de se arrogar algo dos direitos dos soberanos. Pelo contrário, ela ensina que o que é retamente devido ao poder civil deve ser prestado a ele com convicção e consciência de dever. Ensinando que do próprio Deus vem o direito de governar, ela adiciona uma grande dignidade à autoridade civil, e ainda ajuda a obter a obediência e boa intenção dos cidadãos. Amiga da paz e sustentáculo da concórdia, ela abraça a todos com amor maternal, e, intencionando apenas auxiliar o homem mortal, ela ensina que à justiça deve ser ajuntada a clemência, eqüidade à autoridade, e moderação à legislação; que o direito de ninguém pode ser violado; que a ordem e a tranqüilidade pública devem ser mantidas e que a pobreza daqueles que estão em necessidade deve, tanto quanto possível, ser aliviada pela caridade pública e privada. "Mas por esta razão," para usar as palavras de Sto. Agostinho, "os homens pensam, ou gostariam de acreditar, que o ensinamento Cristão não é adequado para o bem do Estado; pois eles desejam que o Estado seja fundado não em sólida virtude, mas na impunidade do vício."[14] Sabendo destas coisas, os príncipes e o povo agiriam com sabedoria política[15], e de acordo com as necessidades da segurança geral, se, ao invés de juntar-se aos Maçons para destruir a Igreja, eles se juntassem à Igreja para repelir os seus ataques.
30. O que quer que o futuro possa ser, neste grave e difundido mal é Nosso dever, veneráveis irmãos, esforçar-nos por encontrar um remédio. E porque Nós sabemos que a Nossa melhor e mais firme esperança de um remédio está no poder daquela divina religião que os Maçons odeiam em proporção ao seu medo dela, Nós pensamos ser de capital importância chamar esse grande poder salvífico em Nosso auxílio contra o inimigo comum. Portanto, tudo que os Pontífices Romanos Nossos predecessores decretaram com o propósito de opor-se aos projetos e esforços da seita maçônica, e tudo que eles tenham legislado quanto à entrada ou saída de homens de sociedades deste tipo, Nós ratificamos e confirmamos completamente pela nossa autoridade apostólica: e confiando grandemente na boa intenção dos Cristãos, Nós rogamos e imploramos a cada um, pela sua salvação eterna, para ser o mais conscienciosamente cuidadoso para não divergir o mínimo que seja daquilo que a sé apostólica tem ordenado neste assunto.
31. Nós rogamos e imploramos a vós, veneráveis irmãos, a juntar os vossos esforços com os Nossos, e esforçadamente lutar pela extirpação desta praga maligna, que está se esgueirando através das veias do corpo da política. Vós deveis defender a glória de Deus e a salvação do vosso próximo; e com o objetivo de vosso combate à vossa frente, nem coragem nem força irão faltar. Será por vossa prudência que julgareis por quais modos vós podeis melhor sobrepujar as dificuldades e obstáculos com os quais vos encontrardes. Mas, como pertence à autoridade de Nosso ofício que Nós mesmos apontemos algumas maneiras apropriadas de procedimento, Nós desejamos que o vosso primeiro ato seja arrancar a máscara da Maçonaria, e deixar que ela seja vista como realmente é; e por sermões e cartas pastorais instruir o povo quanto aos artifícios usado pelas sociedades deste tipo para seduzir os homens e persuadi-los a entrar em suas fileiras, e quanto à perversidade de suas ações e à maldade de seus atos. Como Nossos predecessores por muitas vezes repetiram, que nenhum homem pense que ele possa por qualquer razão que seja ajuntar-se à seita maçônica, se ele dá valor ao seu nome Católico e à sua salvação eterna como ele deveria valorizá-los. Que nenhum seja enganado por uma pretensão de honestidade. Pode parecer a alguns que os Maçons não exigem nada que seja abertamente contrário à religião e à moral; mas, como todo princípio e objetivo da seita está naquilo que é vicioso e criminoso, ajuntar-se com estes homens ou em algum modo ajudá-los não pode ser legítimo.
32. Além disso, por assíduos ensinamentos e exortações, a multidão precisa ser levada a aprender diligentemente os preceitos da religião; para este propósito Nós encarecidamente recomendamos que por oportunos escritos e sermões lhes sejam ensinados os elementos daquelas sagradas verdades nas quais a filosofia Cristã está contida. O resultado disto será que as mentes dos homens serão fortalecidas pela instrução, e serão protegidas contra muitas formas de erro e induções à depravação, especialmente na presente liberdade de escrita sem limites e insaciável desejo de aprender.
33. Grande, realmente, é a obra; mas nela o clero irá compartilhar os vossos trabalhos, se, através de vosso cuidado, eles estiverem à altura disto através do aprendizado e de uma vida bem orientada. Este bom e grande trabalho requer o auxílio também da indústria daqueles entre os leigos em que um amor pela religião e pela pátria existe ao lado da instrução e retidão de vida. Unindo os esforços do clero e dos leigos, batalhai, veneráveis irmãos, para fazer os homens conhecer e amar completamente a Igreja; pois, quanto maior o seu conhecimento e amor pela Igreja, mais eles se desviarão das sociedades clandestinas.
34. Por este motivo, não sem causa Nós usamos esta ocasião para declarar novamente o que nós declaramos em outro lugar, ou seja, que a Ordem Terceira de São Francisco, cuja disciplina Nós algum tempo atrás prudentemente mitigamos[16], deveria ser refletidamente promovida e sustentada; pois todo o objetivo desta Ordem, como constituída por seu fundador, é convidar os homens a uma imitação de Jesus Cristo, a um amor à Igreja, e à observância de todas as virtudes Cristãs; e portanto ela deveria ser de grande influência em suprimir o contágio das sociedades pervertidas. Que, portanto, esta santa irmandade possa ser fortalecida por um crescimento diário. Entre os muitos benefícios a serem esperados disso estará o grande benefício de voltar as mentes dos homens à liberdade, fraternidade e igualdade de direito; não tais como os Maçons absurdamente imaginam, mas tais como Jesus Cristo obteve para o gênero humano e aos quais São Francisco aspirou: a liberdade, Nós queremos dizer, de filhos de Deus, através da qual nós podemos ser livres da escravidão a Satanás ou a nossas paixões, ambos os mais perversos mestres; a fraternidade cuja origem está em Deus, o Criador comum e Pai de todos; a igualdade a qual, fundada na justiça e caridade, não remove todas as distinções entre os homens, mas, das variedades da vida, dos deveres, e das ocupações, forma aquela união e aquela harmonia que naturalmente tende ao benefício e dignidade da sociedade.
35. Em terceiro lugar, há um assunto sabiamente instituído por nossos ancestrais, mas no decorrer do tempo deixado de lado, que pode agora ser usado como um padrão e forma de algo semelhante. Nós queremos dizer as associações ou organizações de trabalhadores, para proteger, sob a direção da religião, os seus interesses temporais e a sua moralidade. Se nossos ancestrais, por longa prática e experiência, sentiram o benefício destas associações, nossa época talvez irá senti-lo ainda mais por causa da oportunidade que eles darão de esmagar o poder das seitas. Aqueles que sustentam a si mesmos pelo trabalho de suas mãos, além de serem, pela sua própria condição, mais dignos acima de todos os outros de caridade e consolação, são também especialmente expostos às tentações de homens cujos caminhos estão na fraude e no engano. Portanto, eles devem ser ajudados com a maior bondade possível, a ser convidados a juntar-se a associações que são boas, para que eles não sejam arrastados para outras que são malignas. Por esta razão, Nós grandemente desejamos, pela salvação das pessoas, que, sob os auspícios e patrocínio dos bispos, e em oportunidades convenientes, estas associações possam ser restauradas de uma maneira generalizada. Para Nossa grande alegria, irmandades deste tipo e também associações de mestres já foram estabelecidas em muitos lugares, tendo, cada classe delas, por seu objetivo ajudar os honestos trabalhadores, a proteger e guardar suas crianças e família, e a promover neles a piedade, o conhecimento Cristão, e uma vida moral. E neste assunto Nós não podemos nos omitir de mencionar aquela sociedade exemplar, denominada de acordo com o seu fundador, São Vicente, que tem merecido tanto das classes mais baixas. Seus atos e seus alvos são bem conhecidos. Todo o seu objetivo é dar alívio ao pobre e miserável. Isto ela faz com singular prudência e modéstia; e quanto menos ela deseja ser notada, mais ela se adequa ao exercício da caridade Cristã, e para o alívio dos sofredores.
36. Em quarto lugar, de modo a mais facilmente atingir o que Nós desejamos, à vossa fidelidade e vigilância Nós recomendamos de um modo especial os jovens, como sendo a esperança da sociedade humana. Devotai a maior parte do vosso cuidado à instrução deles; e não pensai que qualquer precaução possa ser grande o suficiente para mantê-los afastados de mestres e escolas aonde o hálito pestilento das seitas deva ser temido. Sob a vossa direção, deixem os pais, instrutores religiosos, e padres tendo a cura de almas, usar cada oportunidade, em seu ensinamento Cristão, para advertir suas crianças e pupilos da natureza infame destas sociedades, para que eles possam aprender em bom tempo a terem cuidado com os variados e fraudulentos artifícios pelos quais seus promotores costumam laçar as pessoas. E aqueles que instruem os jovens em conhecimento religioso agirão sabiamente se eles induzirem todos eles a se resolverem e se comprometerem a nunca ligar-se a qualquer sociedade sem o conhecimento de seus pais, ou o conselho de seu padre ou diretor.
37. Nós bem sabemos, entretanto, que os nossos esforços unidos não serão de modo algum suficientes para arrancar estas sementes perniciosas do campo do Senhor, a menos que o Celestial Mestre da vinha misericordiosamente nos ajude em nossos esforços. Nós precisamos, portanto, com grande e ansioso cuidado, implorar a Ele a ajuda que a grandeza do perigo e da necessidade requer. A seita da Maçonaria mostra-se insolente e orgulhosa de seu sucesso, e parece que ela não colocará limites à sua pertinácia. Seus seguidores, ajuntados por perversos acordos e por conselhos secretos, ajudam-se uns aos outros, e excitam-se uns aos outros a uma audácia nas coisas malignas. Um ataque tão veemente exige uma igual defesa - especificamente, que todos os homens de bem formem a mais abrangente associação possível de ação e de oração. Nós imploramos a eles, portanto, com corações unidos, a permanecer unidos e firmes contra as forças das seitas que avançam; e em aflição e súplica estender suas mãos a Deus, orando que o nome Cristão possa florescer e prosperar, que a Igreja possa desfrutar da sua necessária liberdade, que aqueles que se extraviaram possam retornar a uma mente reta, que o erro difundido possa dar lugar à verdade, e o vício à virtude. Tomemos como nossa auxiliadora e intercessora a Virgem Maria, Mãe de Deus, para que ela, que desde o momento de sua concepção derrotou Satanás possa mostrar seu poder sobre estas seitas malignas, nas quais revive o contumaz espírito do demônio, juntamente com sua perfídia insubmissa e enganosa. Imploremos a Miguel, o príncipe dos anjos celestes, que lançou fora o infernal inimigo; e José, o esposo da santíssima Virgem, e patrono celeste da Igreja Católica; e os grandes Apóstolos, Pedro e Paulo, os pais e campeões vitoriosos da fé Cristã. Por seu patrocínio, e pela perseverança na união de oração, Nós esperamos que Deus irá misericordiosamente e oportunamente socorrer o gênero humano, que é rodeado por tantos perigos.
38. Como garantia dos dons celestes e de Nossa benevolência, Nós amorosamente concedemos no Senhor a vós, veneráveis irmãos, e ao clero e todo o povo confiado ao vosso vigilante cuidado, Nossa bênção apostólica.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, no vigésimo dia de abril de 1884, o sexto ano de Nosso pontificado.
LEÃO PP. XIII