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OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO IX

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL
MEDITAÇÃO IX.
DO NASCIMENTO DE JESUS NA GRUTA DE BELÉM.

 
Tendo o imperador romano ordenado por um edito que cada um de seus súditos se inscrevesse no lugar de sua origem, José pôs-se a caminho com Maria, sua Esposa, para ir inscrever-se em Belém. — Ó céu! quanto não teve de sofrer a santa Virgem nessa viagem, que era de quatro dias, por caminhos montanhosos e no coração do inverno, numa estação de frio, de ventos e chuvas!
Quando estiveram em Belém, chegou o momento em que devia nascer o Messias. José pôs-se logo a procurar na cidade um lugar conveniente em que Maria pudesse dar à luz a seu Filho. Mas como era pobres, foram repelidos em toda parte recusaram-lhes até a hospedagem nos hotéis em que eram aceitos os outros pobres. Tiveram por isso de sair da cidade durante a noite, e Maria entrou numa gruta que encontraram. Mas José disse-lhe: Cara Esposa, como podeis passar a noite em lugar tão úmido e frio e aí dar à luz o vosso divino Filho? não vêdes que é um estábulo? — Ah! meu caro José, respondeu Maria, é certo que este estábulo é o palácio em que o Filho de Deus quer nascer.
Logo depois, estando a Virgem de joelhos em oração, chegada a hora do nascimento do Salvador, a gruta foi imediatamente aclarada por uma grande luz. Maria abaixa os olhos e vê no solo o Filho de Deus já nascido, tenra criancinha que treme de frio e que chora. Adora-o logo como seu Deus; depois toma-o em seus braços e envolve-o nos pobres paninhos que levara consigo; e enfim depois de o enfaixar, deita-o num presépio sobre a palha. — Assim quis nascer por amor de nós o Filho do Padre eterno.
S. Maria Madalena de Pazzi dizia que as almas que amam a Jesus Cristo devem fazer aos pés do santo Menino o ofício dos animais que no estábulo de Belém acalentavam com seu hálito a Jesus: devem também acalentá-lo com seus suspiros de amor.
Afetos e Súplicas.
Ó adorável Menino, não ousaria ficar aos vossos pés, se não soubesse que me convidais e aproximar-me de vós. Fui eu por meus pecados que vos fiz derramar tantas lágrimas no estábulo de Belém: mas, já que viestes à terra para perdoar aos pecadores penitentes, dignai-vos perdoar-me; arrependo-me sobremaneira de vos haver desprezado a vós meu Salvador e meu Deus, que sois tão bom e que me haveis amado tanto!
Nesta noite concedeis grandes graças a tantas almas; ah! consolai também a minha alma: a graça que desejo é a de vos amar doravante de todo o meu coração; inflamai-o todo de vosso santo amor. Amo-vos, ó meu Deus feito Menino por mim. Por favor não permitais que eu cesse jamais de vos amar.
Ó Maria, minha Mãe, podeis tudo com vossas preces; não vos peço outra coisa senão que rogueis a Jesus por mim.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO VIII

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL

MEDITAÇÃO VIII.
DA ESTADA DE JESUS MENINO NO EGITO E EM NAZARÉ

 
Nosso divino Redentor passou no Egito os sete primeiros anos de sua infância, levando vida pobre e desprezada. José e Maria eram estranhos e desconhecidos, sem parentes e sem amigos, e o trabalho de suas mãos mal lhes fornecia o necessário para o sustento diário. A sua habitação era pobre, o seu leito pobre, o seu alimento pobre. Foi lá que Maria continuou a amamentar a Jesus e o desaleitou. Depois de o nutrir com seu leite, ela o sustentou com suas mãos: duma tigela tomava um pouco de pão embebido em água, e o levava à boca sagrada de seu Filho. Foi lá que lhe fez a primeira túnica, lhe tirou as faixas, e começou a vesti-lo. Foi lá que Jesus aprendeu a andar, dando os primeiros passos, vacilando e caindo várias vezes como sucede às outras crianças. Foi lá que Jesus proferiu suas primeiras palavras, balbuciando. — Ó prodígio! a que estado se reduziu um Deus por nosso amor! um Deus vacilar e cair ao andar! um Deus balbuciar ao falar!
A vida que Jesus levou após a volta do Egito, na casa de Nazaré, não foi menos pobre nem menos abjeta. Até a idade de trinta anos exerceu o ofício de simples operário numa oficina; obedecia a José e a Maria. Jesus ia buscar água; Jesus abria e fechava a oficina; Jesus varria a casa, recolhia a lenha para o fogo, e afatigava-se o dia inteiro para ajudar a José em seu trabalho. — Ó espetáculo assombroso! um Deus que trabalha como operário! um Deus que varre a casa! um Deus que se fatiga até suar para desbastar uma peça de madeira! quem é Jesus? um Deus todo-poderoso, que com um aceno criou o mundo, e que pode aniquilá-lo quando quiser! — Ah! um só desses pensamentos deveria consumir-nos de amor.
Quão doce era então observar a devoção com que Jesus fazia oração, a paciência com que trabalhava, a prontidão com que obedecia, a modéstia com que tomava as refeições, e a mansidão e afabilidade com que falava e conversava! Ah! certamente todas as palavras e todas as ações de Jesus eram tão santas que inflamavam de amor todos os corações, mas principalmente os de Maria e de José que o observavam continuamente.

Afetos e Súplicas.
Ó Jesus, meu Salvador, quando penso que vós, meu Deus, permanecestes tantos anos desconhecido e desprezado numa pobre casa por amor de mim, como posso desejar os prazeres, as honras, as riquezas deste mundo? Renuncio a todos esses bens, e quero ser vosso companheiro sobre a terra, pobre como vós, mortificado como vós, e desprezado como vós: com isso espero gozar um dia a vossa companhia no paraíso. Que são os reinos, os tesouros deste mundo? Meu Jesus, vós sereis o meu único tesouro, o meu único bem. Sinto profunda dor de no passado haver tantas vezes desprezado a vossa amizade para satisfazer os meus caprichos; arrependo-me de todo o coração. Para o futuro estou resolvido a antes perder mil vezes a vida do que perder a vossa graça. Meu Deus, não quero mais ofender-vos, quero amar-vos sempre. Ajudai-me a ser-vos fiel até a morte.
Maria, sois o refúgio dos pecadores, sois a minha esperança.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO VII

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL
MEDITAÇÃO VII.
A VIAGEM DE JESUS MENINO AO EGITO.

 
O Filho de Deus desce do céu para salvar os homens; mas apenas nascido os homens o perseguem de morte. Herodes teme que esse Menino lhe roube o reino, e procura perdê-lo. S. José em sonho é avisado por um anjo, toma Jesus e sua Mãe e foge para o Egito. José obedece imediatamente: comunicada essa ordem do céu a Maria, ajunta as ferramentas de seu ofício para no exílio ganhar o pão para si e sua família. Maria, de seu lado, recolhe e toma consigo os paninhos que devem servir ao santo Menino; depois chegando-se ao berço em que dorme seu Filho, diz-lhe em prantos: Ó meu Filho e meu Deus, viestes do céu para salvar os homens; e apenas nascestes já vos procuram tirar a vida! — Proferindo essas palavras, toma-o em seus braços e, continuando a derramar lágrimas, põe-se a caminho com José naquela mesma noite.
Consideremos os sofrimentos, as dores e as privações dos nossos santos exilados em tão longa viagem. Como o divino Menino não podia ainda andar, Maria e José são obrigados a levá-lo alternadamente em seus braços. Na travessia do deserto, têm de passar as noites ao relento e sobre a terra nua. O santo Menino chora de frio; Maria e José choram de compaixão por ele. E quem não choraria vendo o Filho de Deus, pobre e perseguido e errante, constrangido a fugir da espada assassina de seus inimigos?
Afetos e Súplicas.
Ó doce Menino, chorais e tendes razão de chorar vendo-vos assim perseguido pelos homens, que tanto amais. Mas, ah! eu também vos persegui outrora com meus pecados! mas agora amo-vos mais do que a mim mesmo, e nenhuma pena me aflige tanto como a lembrança de haver desprezado a vós, meu bem supremo. Por favor, perdoai-me, meu Jesus, e permiti vos leve comigo, em meu coração, durante o resto da minha viagem neste mundo, para entrar convosco na eternidade. Inúmeras vezes vos bani de minha alma pelo pecado; mas hoje eu vos amo e me arrependo sobre todas as coisas de vos haver ofendido. Meu amado Senhor, estou resolvido a não mais deixar-vos; mas dai-me a força de vencer as tentações; não permitais me separe mais de vós; fazei-me antes morrer do que ter novamente a desgraça de perder a vossa amizade.
Ó Maria, minha esperança, fazei que eu sempre viva e que morra amando a Deus.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO VI

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL

MEDITAÇÃO VI.
DA MISERICÓRDIA DE DEUS
NA OBRA DE NOSSA SALVAÇÃO.

Manifestou-se a bondade e a caridade de Deus ao homem. Quando o Filho de Deus feito homem apareceu na terra, viu-se em toda a sua imensidade a bondade de Deus a nosso respeito. — Segundo a reflexão de S. Bernardo, Deus mostrou o seu poder criando o mundo, e a sua sabedoria governando-o; mas fez resplandecer a sua misericórdia sobretudo quando se revestiu da carne humana para salvar por seus sofrimentos e por sua morte a humanidade perdida. E com efeito, que maior misericórdia poderia o Filho de Deus fazer-nos do que tomando sobre si as penas que nos eram devidas.
Ei-lo, pois, nascido, feito menino, fraco, enfaixado, reclinado num presépio; não pode mover-se nem alimentar-se por si mesmo; é preciso que Maria lhe apresente um pouco de leite para sustentar-lhe a vida. Ei-lo depois no pretório de Pilatos, atado com cordas a uma coluna, da qual pode livrar-se, e é flagelado da cabeça aos pés. Ei-lo pouco depois que caminha para o Calvário: exausto de forças e oprimido sob o peso da cruz, cai e torna a cair no caminho. Ei-lo enfim cravado no madeiro infame, no qual perde a vida pela violência das dores.
Com tanto amor Jesus tencionava ganhar todo o nosso amor e todos os corações; por isso não mandou um anjo para resgatar-nos, mas veio em pessoa salvar-nos por sua paixão. Se o homem tivesse sido resgatado por um anjo, ele deveria dividir o seu coração, e amar a Deus como seu Criador, e ao anjo como seu redentor; a fim pois de conquistar para si só o coração do homem, Deus quis ser o seu Redentor como já era o seu Criador.
Afetos e Súplicas.
Ah! meu caro Redentor, onde estaria eu agora, se, em vez de me suportardes com tanta paciência, me tivésseis feito morrer quando me achava em pecado mortal? Se me tendes esperado até esta hora, meu Jesus, apressai-vos a perdoar-me para que a morte me não surpreenda carregado de inumeráveis pecados. Ó meu soberano Bem, sinto ter-vos desprezado; quisera morrer de dor. Não abandonais uma alma que vos procura; se no passado me afastei de vós, agora procuro-vos e amo-vos. Sim, meu Deus, amo-vos sobre todas as coisas, amo-vos mais do que a mim mesmo. Senhor, ajudai-me a amar-vos constantemente o resto de minha vida, nada mais vos peço; eu vo-la peço e a espero.
Maria, minha esperança, rogai por mim: se pedirdes por mim, tenho a certeza de ser atendido.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO V

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL
MEDITAÇÃO V.
DA VIDA AFLITA QUE JESUS LEVOU
DESDE O SEU NASCIMENTO.

 
Jesus Cristo podia salvar o homem sem sofrer e sem morrer; mas não: para melhor mostrar-nos o seu amor, escolheu uma vida cheia de aflições. Já o profeta o chamara Homem de dores, devendo sua vida ser repleta de penas. A paixão de nosso Salvador não começou no tempo da sua morte, mas desde o seu nascimento.
Ao nascer encontra-se num estábulo, onde tudo o faz sofrer. Sofre na vista que não encontra nessa gruta senão pedras brutas e negras. Sofre no olfato pelo cheio fétido dos excrementos dos animais que a habitam. Sofre no tato pelas picaduras da palha que lhe serve de leito. — Pouco depois de seu nascimento, é constrangido a fugir para o Egito, onde passa vários anos de sua infância na pobreza e no desprezo. — A vida que de-pois leva em Nazaré pouco difere da do seu exílio. — Enfim termina sua carreira em Jerusalém expirando na cruz pela violência dos tormentos.
A vida de Jesus Cristo foi, pois, um martírio contínuo, e mesmo um duplo martírio, porque teve sempre diante dos olhos todas as penas que o deviam afligir até a morte. A Irmã Maria Madalena Orsini, queixando-se um dia a Jesus crucificado, disse-lhe: “Mas Senhor, vós estivestes só três horas na cruz, enquanto que eu suporto esta pena há vários anos”. Jesus respondeu-lhe: “Ah! ignorante que dizes? Desde o seio de minha Mãe sofri todas as penas da minha vida e da minha mor-te”. Entretanto, o que mais afligiu o coração de Jesus não fo-ram tanto esses sofrimentos, que aceitara voluntariamente; foi a vista dos nossos pecados e da nossa ingratidão após tantas provas de seu amor. S. Margarida de Cortona não cessava de chorar as ofensas que fizera a Deus; o seu confessor disse-lhe um dia: “Margarida, sossega e não chores mais; Deus já te perdoou”. Mas ela respondeu: “Ah! meu pai, como posso ces-sar de chorar os meus pecados, sabendo que eles afligiam meu Salvador durante toda a sua vida”.
Afetos e Súplicas.
Ó meu Amor, por meus pecados enchi de amargura toda a vossa vida. Meu doce Jesus, dizei-me o que devo fazer para obter o perdão, estou pronto a tudo. Arrependo-me de todas as ofensas que vos fiz, ó meu soberano Bem; arrependo-me e amo-vos mais do que a mim mesmo. Sinto grande desejo de amar-vos, e é de vós que me vem esse desejo; dai-me, pois, a força de amar-vos muito. É justo que vos ame muito quem muito vos ofendeu. Ah! lembrai-me sempre o amor que me tivestes, a fim de que minha alma arda sempre de amor por vós, pense sempre em vós, não deseja senão a vós, e não procure agradar senão a vós. Ó Deus de amor, eu, outrora escravo do inferno, dou-me hoje todo a vós. Aceitai-me por piedade, e prendei-me ao vosso amor. Meu Jesus, de hoje em diante quero viver amando-vos, e amando-vos quero morrer.
Ó Maria, minha Mãe e minha esperança, ajudai-me a amar o vosso e o meu Deus; só vos peço essa graça; de vós a espero.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO IV

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL
MEDITAÇÃO IV.
DA VIDA HUMILDE QUE JESUS LEVOU
DESDE SUA INFÂNCIA.

 
Todas as indicações que o anjo deu aos pastores de Belém para reconhecerem o Salvador recém-nascido, foram sinais de humildade. Eis o sinal, disse-lhes, pelo qual conhecereis o Messias: achareis um Menino envolto em pobres paninhos, num estábulo, e reclinado sobre palha num presépio. — Assim quis nascer o Rei do céu, o Filho de Deus, porque vinha destruir o orgulho, que causara a perda do homem.
Os profetas haviam predito que nosso divino Redentor seria tratado como o homem mais vil do mundo, e saturado de opróbrios. Quantos ultrajes não teve Jesus de sofrer da parte dos homens! Foi tratado de beberrão, de feiticeiro, de blasfemo e de herege. E quantas outras ignomínias em sua paixão! foi abandonado por seus próprios discípulos; um deles o vendeu por trinta dinheiros, e um outro o renegou, protestando não o conhecer; foi arrastado pelas ruas atado com um malfeitor; foi flagelado como um escravo, escarnecido como um insensato, como um rei de comédia, esbofeteado, coberto de escarros, e por fim condenado a morrer numa cruz entre dois ladrões, como o maior facínora do mundo.
O mais nobre de todos os seres, diz S. Bernardo, é tratado como o mais desprezível de todos! — Mas, meu Jesus, ajunta, quanto mais humilde e desprezado vos mostrais, tanto mais caro e amável vos tornais a mim!
Afetos e Súplicas.
Ah! meu doce Salvador, abraçastes todos esses desprezos por meu amor, e eu, não posso ouvir uma palavra injuriosa sem logo pensar em vingança, eu que tantas vezes mereci ser calcado aos pés dos demônios no inferno! Envergonho-me de aparecer diante de vós tão pecador e orgulhoso. Senhor, não me expulseis de vossa presença, como mereceria. Dissestes que não desprezais um coração que se arrepende e se humilha; arrependo-me de todos os desgostos que vos causei. Perdoai-me, meu Jesus, estou resolvido a não mais vos ofender. Sofrestes tantas injúrias por meu amor; quero sofrer por vosso amor todas as injúrias que me forem feitas. Amo-vos, meu Jesus desprezado por mim, amo-vos, ó meu Bem! amo-vos mais do que todos os bens. Socorrei-me para que vos ame e sofra todas as afrontas para vos comprazer.
Ó Maria, recomendai-me a vosso Filho; pedi a Jesus por mim.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO III

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL 
 MEDITAÇÃO III.
DA VIDA POBRE QUE JESUS ABRAÇA AO NASCER.

 
Deus dispusera que no momento em que seu Filho devia nascer sobre a terra, cada qual fosse obrigado, por ordem do imperador, a ir ao lugar de sua origem para lá ser inscrito; assim José teve de ir com sua Esposa a Belém para se alistar segundo o decreto de César. Chegou então a hora em que Maria devia dar à luz o seu divino Filho; não podendo achar lugar em nenhuma casa, nem mesmo nas hospedarias públicas em que ficavam os pobres, foi obrigada a retirar-se de noite a uma gruta, e lá deu à luz o Rei do céu. Se Jesus tivesse vindo ao mundo em Nazaré, é certo que teria também nascido em pobreza, mas ao menos teria tido um quarto salubre, um pouco de lume, paninhos quentes, e um berço mais cômodo. Mas não: ele quis nascer na gruta fria e sem lume; quis que um presépio lhe servisse de berço, e que um pouco de palha rude lhe servisse de leito a fim de sofrer mais.
Entremos no estábulo de Belém, mas entremos com fé. Se lá entrarmos sem fé, que veremos? Uma pobre criancinha que treme e chora, atormentada pelo frio e pela rudeza da palha em que está deitada; vendo-a tão bela teremos, sim, um sentimento de compaixão, e nada mais. Se ao contrário lá entrarmos com fé refletiremos que essa criança é o Filho de Deus, que veio ao mundo por nosso amor, e que sofre para expiar os nossos pecados: como então nos será possível não lhe termos gratidão e amor?
Afetos e Súplicas.
Ah! caro e doce Menino, como pude ser tão ingrato, e causar-vos tantos desgostos, sabendo o que sofrestes por mim? Mas as lágrimas que derramais e a pobreza que escolhestes por amor de mim, fazem-me esperar o perdão das ofensas que cometi contra vós. Ó Meu Jesus, arrependo-me de vos haver tantas vezes voltado as costas, e amo-vos sobre todas as coisas. Deus, meus, et omnia: Meu Deus, doravante sereis o meu único tesouro e todo o meu bem: Dai-me o vosso amor, dir-vos-ei com S. Inácio, dai-me vossa graça, e serei rico. Não quero, não desejo outra coisa: vós só me bastais, meu Jesus, minha vida, meu amor.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO II

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL
MEDITAÇÃO II.
DO AMOR QUE DEUS NOS MOSTROU NASCENDO MENINO.

 
Fazendo-se homem por nosso amor, podia o Filho de Deus aparecer no mundo em estado de homem perfeito, como Adão, quando foi criado; mas como as crianças ganham ordinariamente mais o afeto dos que as vêm, quis mostrar-se na terra sob a forma duma criancinha, e até da mais pobre e abjeta de todas as crianças que jamais nasceram. “O nosso Deus quis nascer assim, diz S. Pedro Crisólogo, porque se queria fazer amar”. O profeta Isaías havia predito que o Filho de Deus nasceria criança e assim se daria todo a nós, por amor. Nasceu-nos um Menino, foi-nos dado um Filho.
Ah! meu Jesus, meu soberano Senhor e verdadeiro Deus, quem vos moveu a deixar o céu e a nascer numa gruta senão o vosso amor pelos homens? Quem vos fez descer do vosso trono elevado acima dos astros, para vos estender sobre palha? Porque vejo-vos agora deitado entre dois animais quando antes vos rodeavam os coros dos anjos? Abrasais de santo amor os Serafins, e eis que tremeis de frio num estábulo! Dais movimento aos céus e aos sóis, e eis que não podeis mudar de lugar sem o concurso de um braço estranho! Provedes ao alimento dos homens e dos animais, e tendes necessidade dum pouco de leite para sustentar a vida! Sois a alegria do céu, como pois vos ouço gemer e chorar? Dizei-me: quem vos reduziu a tanta miséria? “Quem é o autor de todas essas mudanças? pergunta S. Bernardo; é o amor”, responde ele, é o vosso amor para com os homens.
Afetos e Súplicas.
Ó caro Menino, dizei-me: que viestes fazer na terra? dizei-me: que viestes aqui buscar? Ah! eu vos entendo: viestes morrer por mim a fim de livrar-me do inferno; viestes procurar-me, que sou ovelha perdida, a fim que para o futuro me não afaste mais de vós e vos ame. Ó meu Jesus, meu tesouro, minha vida, meu amor, meu tudo, se vos não amar a quem amarei? Onde posso achar um pai, um amigo, um esposo, mais amável do que vós, e que mais do que vós me tenha amado? Amo-vos, meu Deus, amo-vos, meu único Bem! Pesa-me de ter vivido tantos anos, não só sem vos amar, mas ofendendo-vos e desprezando-vos. Perdoai-me, meu amado Redentor, arrependo-me de vos haver tratado assim, arrependo-me de toda a minha alma. Perdoai-me e dai-me a graça de me não separar mais de vós e de vos amar no resto de minha vida. Ó meu amor, dou-me todo a vós; aceitai-me, e não me repitais como mereço.
Maria, sois minha Advogada, e por vossas preces, obtendes de vosso divino Filho tudo o que desejais; pedi-lhe que me perdoe e me conceda a santa perseverança até a morte.

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL -MEDITAÇÃO I

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL
 MEDITAÇÃO I.
DO AMOR QUE DEUS NOS MOSTROU
FAZENDO-SE HOMEM.
 

Consideremos o amor imenso que Deus Filho nos mostrou fazendo-se homem para obter-nos a salvação eterna.
Adão, nosso primeiro pai, cai no pecado, e revoltando-se contra Deus, é expulso do paraíso terrestre e condenado à morte eterna com todos os seus descendentes. Mas o Filho de Deus, vendo perdido o homem, oferece-se, para livrá-lo da morte, a tomar a natureza humana e a padecer o suplício da cruz. — Mas, meu Filho, parece ter-lhe dito então o Pai celeste, pensa que terás de levar na terra uma vida cheia de humilhações e sofrimentos. Terás de nascer numa fria gruta e ser reclinado na manjedoura dos animais. Terás logo depois de fugir para o Egito a fim de escapares às mãos de Herodes. Voltando do Egito, terás de viver na oficina de operário, como um simples artífice, pobre e desprezado. Finalmente terás de morrer na cruz, coberto de opróbrios e abandonado por todos. — Não importa, meu Pai, responde o Filho de Deus; estou pronto a tudo, contanto que o homem se salve.
Que é que se diria, se um príncipe, tocado de compaixão por um verme, que acabasse de morrer, se quisesse transformar num verme, preparar ao miserável verme um banho de seu sangue, e morrer para lhe restituir a vida? O Verbo eterno fez bem mais por nós, pois era Deus e quis tornar-se um verme semelhante a nós, e morrer por nós, a fim de nos restituir a vida da graça, que tínhamos perdido. Vendo que nenhum de seus dons podia conquistar-lhe o nosso amor, revestiu-se de nossa humanidade, e deu-se todo a nós: O Verbo de fez carne — e entregou-se por nós.
O homem mostra seu desprezo a Deus, exclama S. Fulgêncio, afastando-se dele; Deus mostra seu amor ao homem descendo do céu à sua procura! Mas qual é o seu intento nesse passo? Quer que o homem, sabendo quanto é amado por Deus, o ame por sua vez, ao menos por gratidão. Mas ah! amamos um animal que se chega aos nossos pés; como pois não seremos gratos para com um Deus, que desce do céu à terra para que o amemos?
Um homem, assistindo uma vez à missa, não manifestou nenhum ato de respeito às palavras que o sacerdote recita no fim: Et Verbum caro factum est. “O Verbo se fez carne”. Imediatamente o demônio lhe deu uma terrível bofetada, dizendo: “Ingrato, se Deus tivesse feito por mim o que fez por ti, eu ficaria eternamente prostrado em terra para lhe agradecer”.

 Afetos e Súplicas.
Ó Filho eterno de Deus, fizestes-vos homem para ganhar o coração do homem; mas onde está o amor que os homens vos têm? Destes o vosso sangue e a vossa vida para salvar vossas almas; como pois vos somos tão pouco reconhecidos? ah! em vez de vos amarmos, levamos ao desprezo a nossa ingratidão! Senhor, eis a vossos pés aquele que vos ultrajou mais do que todos. Mas a vossa paixão é a minha esperança. Ah! pelo amor que vos levou a tomardes a natureza humana e a morrerdes na cruz pela minha salvação, perdoai todas as minhas ofensas. Amo-vos, ó Verbo encarnado, amo-vos, ó meu Deus, amo-vos, bondade infinita, arrependo-me de vos haver desgostado tanto, quisera morrer de dor. Meu Jesus, dai-me o vosso amor; não permitais que continue a pagar com ingratidão a afeição que me mostrastes. Quero amar-vos toda a minha vida. Dai-me a santa perseverança.
Ó Maria, Mãe de Deus e minha Mãe, obtende-me de vosso Filho a graça de o amar cem cessar até a morte.


Santo Afonso Maria de Ligorio

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL- Coroinha

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL.
Coroinha a recitar-se antes de cada meditação
1. Meu dulcíssimo Jesus, que nascestes numa gruta, e que depois fostes colocado num presépio sobre palha, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
2. Meu dulcíssimo Jesus, que fostes apresentado e oferecido no templo por Maria, para serdes um dia imolado por nós na cruz, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
3. Meu dulcíssimo Jesus, que fostes perseguido por Herodes e constrangido a fugir para o Egito, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
4. Meu dulcíssimo Jesus, que permanecestes sete anos no Egito, pobre, desconhecido e desprezado por aquele povo bár-baro, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
5. Meu dulcíssimo Jesus, que voltastes à vossa pátria, para lá ser um dia crucificado entre dois ladrões, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
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6. Meu dulcíssimo Jesus, que, aos doze anos de idade, ficastes no templo, discutindo com os doutores, e fostes encontrado ao terceiro dia por vossa santa Mãe, Maria, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
7. Meu dulcíssimo Jesus, que vivestes na obscuridade tantos anos na oficina de Nazaré, obedecendo a Maria e a José, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
8. Meu dulcíssimo Jesus, que, três anos antes de vossa paixão, vos apresentastes ao mundo para pregar e ensinar o caminho da salvação, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
9. Meu dulcíssimo Jesus, que enfim terminastes a vossa vida morrendo na cruz por nosso amor, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.


Por Santo Afonso Maria de Ligorio

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO VIII

MEDITAÇÃO VIII.
TRÊS FONTES DE GRAÇAS QUE TEMOS EM JESUS CRISTO
.

Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris.
Hauríreis com alegria das fontes do Salvador (Is 12,3).


 
Parte I.
Temos em Jesus Cristo três fontes de graças. A primeira é uma fonte de misericórdia, na qual podemos purificar-nos de todas as manchas dos nossos pecados; essa feliz fonte o nosso amantíssimo Salvador a formou com seu próprio sangue: Ele nos amou, diz S. João, e nos purificou de nossos pecados no seu sangue.
Meu caro Salvador, quanto vos devo! fizestes por mim o que um servo não teria feito por seu senhor, nem um filho por seu pai. Ah! não posso viver sem vos amar, pois, por vosso amor, me pusestes na doce necessidade de amar-vos.
Parte II.
A segunda fonte e uma fonte de amor. A quem medita os sofrimentos e as humilhações suportadas por Jesus Cristo desde o seu nascimento até a sua morte por amor de nós, é impossível não se sentir abrasado desse belo fogo que o Filho de Deus veio acender sobre a terra nos corações dos homens. Assim as águas dessa fonte salutar lavam as nossas almas e as inflamam.
Fazei, pois, ó meu Jesus, que o sangue que derramastes por mim não só me lave de todas as faltas com que vos ofendi, mas ainda me inflame de santo ardor por vós; fazei que tudo esqueça para pensar unicamente em amar a vós, meu Deus, que sois digno de amor infinito!
Parte III.
A terceira fonte é uma fonte de paz; é o que significam as palavras do Salvador: Se alguém tem sede, venha a mim. Se alguém deseja a paz, venha a mim que sou o Deus da paz. — A paz que Nosso Senhor dá às almas que o amam não é a que o mundo promete oferecendo-lhes os prazeres dos sentidos ou os bens temporais, coisas que não podem contentar o coração do homem; a paz que Deus dá a seus servos é uma paz verdadeira, plena, que enche o coração, e que excede a todos os gozos, de que as criaturas possam ser fontes: Quem beber da água que eu lhe der, já não terá sede. São palavras do Salvador. Quem ama verdadeiramente a Deus, renuncia a tudo, despreza tudo, e não procura outra coisa senão Deus.
Sim, meu Deus, quero só a vós e nada mais. Houve um tempo em que eu procurava outros bens fora de vós: mas quando penso na injúria que vos fiz, preferindo a vós bens vis e passageiros, quisera morrer de dor. Reconheço o meu erro, e arrependo-me de todo o coração. Reconheço também que mereceis todo o meu amor; repito e espero repetir sempre nesta vida e na outra: Meu Deus! meu Deus, só a vós quero e nada mais; só a vós quero e nada mais. — Ó Maria, sois a primeira a amar a Deus; ah! comunicai-me o vosso amor.


Santo Afonso Maria de Ligorio

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO VII

OUTRAS MEDITAÇÕES DO ADVENTO
MEDITAÇÃO VII.
DO QUANTO JESUS DESEJOU SOFRER POR NÓS.

Baptismo habeo baptizari; et quomodo
coarctor usque dum perficiatur!

Devo ser batizado com um batismo; e com
quanto ardor desejo que se cumpra!


Parte I.
Jesus podia salvar-nos sem sofrer; mas não: quis abraçar uma vida de dores e de desprezos, sem nenhuma consolação terrestre, e uma morte amarga e desolada, unicamente para nos fazer compreender o amor que nos tinha e o desejo de ser amado por nós. Passou sua vida inteira suspirando pela hora de sua morte que desejava oferecer a Deus para obter-nos a salvação eterna; expressou esse desejo nas palavras Devo ser batizado com um batismo; e com quanto ardor desejo que se cumpra! Desejava ser batizado em seu próprio sangue, para lavar, não os seus pecados mas os nossos.

Ó amor infinito, infeliz quem vos não conhece e vos não ama!
Parte II.
Esse mesmo desejo fez-lhe dizer depois na noite que precedeu o dia de sua morte: Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco. — Demonstrou com essas palavras que o único desejo de sua vida tinha sido ver chegar o tempo de sua paixão e morte para provar ao homem o amor imenso que sempre tivera por ele.
Ó meu Jesus, desejais tanto o meu amor, que sofrestes a morte para obtê-lo! que poderia eu recusar a um Deus que me deu seu sangue e sua vida para ser amado por mim?
Parte III.
Segundo observa S. Boaventura, é coisa espantosa ver um Deus sofrer por amor dos homens, mas o que é ainda mais espantoso, é que os homens não ardem em amor por esse Deus tão amante, depois de o verem sofrer tanto por eles, nascer criança e tremer de frio numa gruta, viver como um pobre operário numa oficina, morrer em fim como um criminoso numa cruz; não, não o amam... que digo? chegam até a desprezar o seu amor para se apegarem aos miseráveis prazeres da terra. Mas como é possível que Deus tenha tanto amor aos homens, e que os homens aliás tão reconhecidos para com as criaturas, sejam tão ingratos para com Deus?
Ah! meu Jesus, eu também fui do número desses miseráveis ingratos? Como pusestes sofrer tanto por mim, prevendo as injúrias que vos iria fazer? Mas já que me tendes suportado até agora, e que quereis a minha salvação, dai-me agora uma grande dor dos meus pecados, uma dor que iguale a minha ingratidão. Senhor, odeio e detesto os desgostos que vos causei; se no passado desprezei a vossa graça, agora a aprecio mais do que todos os reinos da terra. Amo-vos de toda a minha alma, ó Deus digno de amor infinito, e desejo viver unicamente para amar-vos. Dai-me mais chamas, dai-me mais amor. Lembrai-me sempre o amor que me tivestes, a fim que meu coração arda sem cessar de amor por vós, como o vosso arde de amor por mim. — Ó Coração de Maria, abrasai de santo amor o meu pobre coração.


Santo Afonso Maria de Ligorio

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO VI

OUTRAS MEDITAÇÕES DO ADVENTO

MEDITAÇÃO VI.
A VISTA DOS NOSSOS PECADOS
AFLIGIU JESUS DESDE O SEIO DE SUA MÃE.

Dolor meus in conspectu meo semper.
A minha dor está sempre diante dos meus olhos.


Parte I.
Todas as aflições e todas as ignomínias que Jesus sofreu em sua vida e morte, estiveram constantemente presentes a seu espírito desde o primeiro momento de sua existência: Dolor meus in conspectu meo semper; e a cada instante Ele as oferecia em expiação dos nossos pecados. O Senhor revelou a um dos seus servos que cada pecado dos homens lhe causava, durante sua vida, uma dor assaz violenta para lhe dar a morte, se lhe não fosse conservada a vida para sofrer mais ainda.
Ó meu Jesus, eis a bela prova de gratidão que recebestes dos homens e de mim em particular! Empregastes trinta anos de vida para salvar-me; e eu fiz tudo o que dependia de mim para vos fazer morrer de dor tantas vezes quantas pequei!
Parte II.
S. Bernardino de Sena diz que Nosso Senhor via em particular o pecado de cada um. Essa vista contínua afligia-o imensamente, desde o primeiro até o derradeiro momento de sua vida. E, ajunta S. Tomás, devido ao conhecimento que tinha da injúria que todo pecado faz a seu Pai, e do prejuízo que nos causa, a sua dor excedeu a de todos os pecadores contritos, mesmo dos que morreram de puro arrependimento. Não há dúvida alguma, pois nenhum pecador chegou a amar a Deus e a sua alma tanto quanto Jesus amava seu Pai e nossas almas.
Assim, meu Jesus, já que ninguém me amou mais do que vós, é justo que vos ame mais do que todos; ou, para melhor dizer, já que só vós me amastes, quero amar só a vós.
Parte III.
A agonia que Jesus sofreu no jardim das Oliveiras à vista dos nossos pecados que se encarregara de expiar, Ele a sofreu desde o seio de sua Mãe. Se pois a vida de nosso divino Salvador foi uma aflição contínua por causa dos nossos pecados, esses pecados devem ser, durante toda a nossa vida, o único mal que nos cause aflição.
Meu amado Redentor, quisera morrer de dor ao pensar nas amarguras de que vos saturei em minha vida. Ó meu amor, se me amais dai-me uma contrição tal que me faça morrer e me alcance o perdão e a graça de amar-vos com todas as minhas forças. Dou-vos o meu coração todo inteiro; e se não o sei dar-vos inteiramente, tomai-o vós mesmo, e inflamai-o de vosso santo amor. — Ó Maria, advogada dos miseráveis, a vós me recomendo.


Santo Afonso Maria de Ligorio

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO V

MEDITAÇÕES DO ADVENTO

MEDITAÇÃO V.
JESUS TUDO FEZ E SOFREU POR NÓS.

Dilexit me, et tradidit semetipsum pro me.
Amou-me, e entregou-se por mim.


 
Parte I.
Ó meu Jesus, se é por amor de mim que abraçastes uma vida tão penosa e uma morte tão amarga, posso dizer que a vossa morte é minha, as vossas dores são minhas, os vossos méritos são meus, em fim vós mesmo sois meu, porque é por mim que vos entregastes a tanto sofrimento. Ah! meu Salvador, a pena que mais me aflige é de pensar que houve um tempo em que éreis meu e que depois vos perdi tantas vezes voluntariamente. Perdoai-me, uni-me estreitamente a vós, e não permitais vos torne a perder no futuro. Amo-vos de toda a minha alma. Quereis ser todo meu, e eu quero ser todo vosso.
Parte II.
O Filho de Deus, sendo verdadeiro Deus, é infinitamente feliz; mas, diz S. Tomás, fez e sofreu pelo homem como se não pudesse ser feliz sem o homem. Se Jesus Cristo tivesse de merecer na terra sua própria beatitude, que mais poderia ser feito do que carregar-se de todas as nossas fraquezas e tomar todas as nossas misérias, para terminar depois a sua vida por uma morte tão dura e infame? Mas não; ele era inocente, santo e feliz em si mesmo; tudo fez e sofreu para obter-nos a graça de Deus e o paraíso que havíamos perdido.
Infeliz de quem vos anão ama, meu Jesus, infeliz de quem não vive tomado de amor por uma tão grande bondade!

Parte III.
Se Jesus Cristo nos tivesse permitido pedir-lhe maiores provas de seu amor, quem jamais teria ousado pedir-lhe que se fizesse criança como nós, abraçasse nossas misérias, e se tornasse até o mais pobre, o mais desprezado, o mais maltratado de todos os homens, morrendo em fim pela violência das dores num madeiro infamante, amaldiçoado e abandonado por todos, mesmo por seu Pai? Mas, o que não teríamos ousado pensar, Ele pensou e realizou.
Meu amado Redentor, dai-me a graça que me merecestes com a vossa morte. Amo-vos e arrependo-me de vos haver ofendido. Apoderai-vos de minha alma, não quero mais seja o demônio o seu senhor; quero seja ela toda vossa, pois que a resgatastes com o vosso sangue. Só vós me amais, e eu quero amar-vos, a vós só. Livrai-me do castigo de viver sem vosso amor, e depois puni-me como for do vosso agrado. — Maria, meu refúgio, a morte de Jesus e a vossa intercessão são as minhas esperanças.


Santo Afonso Maria de Ligorio

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO IV

MEDITAÇÃO IV.
FELICIDADE DE NASCER DEPOIS DA
REDENÇÃO E NA VERDADEIRA IGREJA.

Ubi venit plenitudo temporis, misit Deus
Filium suum... ut eos, qui sub lege erant, redimeret.

Logo que veio o cumprimento do tempo, enviou Deus
a seu Filho... para remir aqueles que estavam debaixo da lei.


 Parte I.
Quão gratos devemos ser a Deus por nos ter feito nascer após a realização da grande obra da Redenção dos homens! É o que nos indica a expressão do texto sagrado: A plenitude do tempo; isto é, o tempo feliz para a plenitude da graça que Jesus Cristo nos obteve com a sua vinda. Ai de nós, se, carregados de tantos pecados, estivéssemos na terra antes da vinda de Jesus Cristo!
Parte II.
Antes da vinda do Messias, ah! em que estado miserável se achavam os homens! O verdadeiro Deus era apenas conhecido na Judéia; a idolatria reinava em todos os outros países do mundo, de sorte que nossos antepassados adoravam as pedras, as árvores, os demônios. Adoravam uma multidão de falsos deuses, e o verdadeiro Deus não era conhecido nem amado. Ainda agora há países em que são poucos os católicos, e em que os outros habitantes são hereges ou infiéis, que indubitavelmente se perdem! Quão gratos devemos ser a Deus, que nos fez nascer, não só depois da vinda de Jesus Cristo, mas ainda num país onde reina a verdadeira fé!
Senhor, eu vos agradeço. Quão infeliz seria eu, se, depois de ter cometido tantos pecados, vivesse no meio dos infiéis ou dos hereges! Vejo, meu Deus, que me quereis salvar, e eu, insensato! tantas vezes vos quis perder, perdendo a vossa graça! Meu Redentor, tende piedade de minha alma, que tanto vos custou!

Parte III.
“Enviou seu Filho para resgatar os que estavam sob a lei”. Assim, o escravo peca, e pecando entrega-se ao demônio, e eis que seu Senhor vem, em pessoa, a fim de resgatá-lo com sua morte! Ó amor imenso, ó amor infinito de Deus, para com o homem!
Se pois me não tivésseis resgatados a custo de vossa vida, ó meu Redentor, que seria de mim, de mim, digo, que tantas vezes mereci o inferno por meus pecados? Se não tivésseis morrido por mim, meu Jesus, ter-vos-ia perdido para sempre, e para mim já não haveria esperança de recuperar a vossa graça, nem de ver um dia no paraíso a vossa bela face. Meu caro Salvador, agradeço-vos, e espero ir agradecer-vos no céu por toda a eternidade. Arrependo-me de todo o coração de vos haver desprezado no passado. Para o futuro estou resolvido a sofrer todas as penas, todas as mortes, antes que vos ofender. Mas posso trair-vos ainda no futuro, como o fiz no passado; ah! meu Jesus, não o permitais! Não, não permitais me separe mais de vós! Amo-vos, Bondade infinita, e quero amar-vos sempre nesta vida e na eternidade. — Maria, minha Rainha e Advogada, guardai-me sempre sob o vosso manto, e preservai-me do pecado.


Santo Afonso Maria de Ligorio

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO III

MEDITAÇÃO III.
MOTIVOS DE CONFIANÇA
QUE NOS DÁ A ENCARNAÇÃO DO VERBO

Quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit?
Como não nos deu, com seu Filho, todas as coisas?


 
Parte I.
Considera, minha alma, como o Pai eterno, dando-nos seu dileto Filho para ser nosso Redentor, não podia proporcionar-nos mais poderosos motivos de confiança em sua misericórdia e de amor à sua infinita bondade: não podia com efeito dar-nos uma prova mais certa do desejo que tem do nosso bem, e do amor imenso que nos consagra, pois que dando-nos seu unigênito Filho, nada mais tem a dar.
Ó Deus eterno, que todos os homens louvem vossa caridade sem limites!
Parte II.
Como não nos deu também com ele todas as coisas? Tendo-nos Deus dado o seu Filho, que ama como a si próprio, podemos acaso temer nos recuse ele qualquer bem que lhe peçamos? Depois de nos dar seu unigênito Filho, Deus não recusará o perdão das nossas culpas, se as detestarmos; não nos recusará a graça de resistir às tentações, se lha pedirmos; não nos recusará seu santo amor, se o desejarmos; finalmente não nos recusará o paraíso, contanto que não nos tornemos indignos dele pelo pecado. Jesus mesmo no-lo garante com as palavras: Se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, ele vo-la dará.

Apoiado nessa promessa divina, ó meu Deus, a vós me dirijo com confiança. Pelo amor de Jesus, vosso Filho, perdoai-me todas as injúrias que vos fiz. Dai-me a santa perseverança na vossa graça até a morte. Dai-me vosso santo amor, que me desapegue tudo, para não amar senão a vós, Bondade infinita! Dai-me o paraíso, para que lá vos ame de todas as minhas forças e para sempre, sem temer cessar jamais de amar-vos.
Parte III.
Enfim, o apóstolo nos garante que, recebendo Jesus Cristo, fomos enriquecidos de todo o bem, de sorte que nos não falte nenhuma graça.
Sim, meu Jesus, sois todo o bem; só vós me bastais, não aspiro senão a vós. Se outrora me afastei de vós pelo pecado, agora me arrependo de todo o coração. Perdoai-me, Senhor, e voltai-vos a mim. Se já estais em mim, como espero, não me deixeis mais ou, para melhor dizer, não permitais vos expulse de minha alma. Meu Jesus, meu Jesus, meu tesouro, meu amor, meu tudo, amo-vos, amo-vos, amo-vos, e quero amar-vos sempre. — Ó Maria, minha esperança, fazei que ame sempre a Jesus.


 Santo Afonso Maria de Ligório

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO II

MEDITAÇÃO II.
BONDADE DE DEUS PADRE E DE DEUS FILHO
NA OBRA DA REDENÇÃO
.

Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine,
et homo factus est.

Encarnou-se pela virtude do Espírito Santo
no seio da Virgem Maria, e fez-se homem.
Parte I.
Deus criou Adão e enriqueceu-o de seus dons; mas o homem teve a ingratidão de ultrajar seu Criador pelo pecado, e assim o infeliz privou a si e a nós todos, seus descendentes, da graça de Deus e do paraíso. Todo o gênero humano estava perdido, irremediavelmente perdido. O homem, tendo ofendido a Deus, era incapaz de oferecer-lhe digna satisfação; foi preciso que uma pessoa divina satisfizesse pelo homem. Que faz o Padre eterno para remediar a perda do homem? Envia ao mundo seu próprio Filho para se fazer homem, revestir-se da carne dos homens pecadores, a fim de pagar as suas dívidas à justiça divina, morrendo por eles, e de obter-lhes com isso a morte na graça de Deus.
Meu Deus, se vossa bondade infinita não houvesse encontrado esse meio de salvação, quem de nós teria jamais ousado pedi-lo ou mesmo imaginá-lo?
Parte II.
Que espanto terá causado aos anjos esse grande amor que Deus se dignou mostrar ao homem rebelde? Que terão dito ao verem o Verbo eterno fazer-se homem, tomar a carne dos pecadores, e revestido dessa carne aparecer no mundo sob as aparências dum pecador como todos os outros?
Ah! meu Jesus, quando vos somos obrigados! e eu mais do que os outros, eu que vos ofendi mais do que os outros! Se meu não viésseis salvar, que seria de mim eternamente? Quem poderia livrar-me das penas que mereço? Sêde para sempre bendito e louvado por tão grande caridade!
O Filho de Deus vem pois do céu para unir-se à natureza humana, vem levar uma vida de penas, vem morrer na cruz por amor dos homens; e os homens que nisso crêem, poderiam amar um outro objeto fora desse Deus encarnado?
Ó Jesus, meu Salvador, quero amar unicamente a vós. Só vós me amastes, só a vós quero amar. Renuncio a todos os bens criados; vós só me bastais, ó Bem imenso, infinito! Se no passado vos desgostei, sinto agora viva dor, para compensar de certo modo a pena que vos causei. Ah! não permitais que no futuro eu corresponda com ingratidão ao amor com que me tendes amado. Não, meu Jesus, fazei que vos ame, e depois tratai-me como vos aprouver. Ó bondade infinita! ó amor infinito! não quero mais viver sem vos amar. — Ó Maria, Mãe de misericórdia, peço-vos só uma graça: fazei que eu ame sempre o meu Deus.


  Santo Afonso Maria de Ligório

MEDITAÇÕES PARA OS 8 PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO- MEDITAÇÃO I

 MEDITAÇÕES PARA OS OITO PRIMEIROS DIAS DO ADVENTO.
MEDITAÇÃO I.
SOBRE O AMOR QUE DEUS NOS MOSTROU
NA ENCARNAÇÃO DO VERBO.

 
Et Verbum caro factum est.
E o Verbo se fez carne.
Parte I.
Deus nos criou para o amarmos neste vida e o possuirmos na outra; mas tivemos a ingratidão de revoltar-nos contra ele, o ofendemos e recusamos obedecer-lhe; e por isso fomos privados da graça de Deus e excluído do paraíso e condenados às penas do inferno. Estávamos todos perdidos. Mas esse Deus de bondade, compadecido de nós, decretou enviar à terra um Redentor que nos erguesse de tão grande ruína.
Parte II.
Mas quem será esse Redentor? um anjo? um Serafim? Não: para dar-vos um penhor de seu imenso amor, Deus envia-nos o seu próprio Filho. Envia à terra o seu unigênito Filho para se revestir da nossa carne pecadora, sem todavia contrair a mancha do pecado; e quer que, por seus sofrimentos e sua morte, o Verbo encarnado satisfaça à justiça divina por nossas culpas, nos livre assim da morte eterna, e nos faça dignos da graça e da glória do paraíso.
Senhor, agradeço-vos por todos os homens: se não pensásseis em salvar-nos, eu e todos os outros estaríamos perdidos para sempre!
Parte III.
Consideremos aqui o amor infinito, que Deus nos mostrou na grande obra da encarnação do Verbo, querendo que seu Filho adorável sacrificasse sua vida pelas mãos dos algozes na cruz num abismo de dores e ignomínias, para nos obter o perdão dos nossos pecados e a salvação eterna. Ó bondade infinita! ó misericórdia infinita! ó amor infinito! um Deus fazer-se homem e morrer por nós, miseráveis vermes da terra!
Ah! meu Salvador, fazei-me conhecer o quanto me tendes amado, a fim que à vista do vosso amor compreenda a minha ingratidão! Com a vossa morte tirastes-me da perdição; e eu ingrato vos voltei as costas para me tornar a perder! Arrependo-me de todo o coração de vos haver feito tão grande injúria. Ó meu Redentor, perdoai-me e preservai-me do pecado no futuro; não permitais eu torne a perder a vossa graça. Amo-vos, meu caro Jesus, sois a minha esperança e o meu amor. — Ó Mãe desse incomparável Filho, Maria, recomendai-lhe minha alma.


  Santo Afonso Maria de Ligório

MEDITAÇÕES PARA A OITAVA DE NATAL - MEDITAÇÃO XII

MEDITAÇÕES PARA A OITAVA DE NATAL
MEDITAÇÃO XII.
 
Repeti a meditação V do advento sobre o abaixamento de Jesus.


MEDITAÇÕES PARA A OITAVA DE NATAL - MEDITAÇÃO XI

MEDITAÇÕES PARA A OITAVA DE NATAL
MEDITAÇÃO XI.
SOBRE A POBREZA DE JESUS MENINO.

 
Céu!! quem não se compadeceria ao ver o filho dum rei nascer em pobreza tal que o obrigasse a abrigar-se numa caverna úmida e fria, a não ter nem leite, nem servos, nem lume, nem mesmo os paninhos necessários para se acalentar?
Ah! meu Jesus, sois o Filho do Senhor do céu e da terra, e nessa gruta gelada não tendes senão uma manjedoura por berço, um pouco de palha por leito, e miseráveis paninhos para vos cobris! Os anjos vos rodeiam e louvam, mas não trazem nenhum alívio à vossa pobreza. Meu Redentor, quanto mais pobre sois, tanto mais amável vos devemos achar pois abraçastes essa grande pobreza para melhor ganhar o nosso amor. Se tivésseis nascido num palácio, se tivésseis um berço de ouro, se fosseis servido pelos maiores príncipes da terra, inspiraríeis aos homens mais respeito, mas menos amor; essa gruta em que estais, esses panos grosseiros que vos cobrem, essa palha em que repousais, essa manjedoura que vos serve de berço, oh! como tudo isso obriga nossos corações a amar-vos, tanto mais que vos fizestes tão pobre a fim de vos tornar mais caro aos nossos olhos. “Quanto mais ele se abaixa por mim, exclama S. Bernardo, tanto mais caro me é”. Fizestes-vos pobre para enriquecer-nos dos vossos bens, isto é, da vossa graça e da vossa glória; é S. Paulo que o diz: Ele se fez indigente... a fim de que sua indigência nos enriquecesse.
A pobreza de Jesus Cristo é para nós uma fonte de grandes riquezas, porque nos move a adquirirmos os bens do céu desprezando os da terra. — Ó meu Jesus, a quantos santos a vossa pobreza fez deixar tudo, riquezas, honras, mesmo coro-as, para viverem pobres convosco. Por favor, ó meu Salvador, desapegai-me também de toda afeição aos bens terrenos, a fim que me torne digno de obter o vosso santo amor e de possuir a vós, Bem infinito!
Afetos e Súplicas.
Ó divino Infante, pena que não posso dizer-vos com vosso caro S. Francisco: “Meu Deus, sois tudo para mim!” ou com Davi: Que há para mim no céu? e fora de vós, que posso desejar sobre a terra? Sois o Deus do meu coração, e a minha única herança para a eternidade. Oxalá pudesse, também eu, não desejar no futuro outra riqueza senão a do vosso amor; de maneira que as vaidades do mundo não tivessem mais domínio sobre o meu coração, e só vós fosseis o seu único Senhor, ó meu Bem-amado! Sim, quero começar hoje a dizer-vos: Sois o Deus do meu coração e a minha herança para a eternidade!

Ah! no passado procurei os bens terrestres, e que encontrei? espinhos e fel! Hoje sinto mais contentamento em me achar aos vossos pés, para vos agradecer e amar, do que proporcionaram todos os meus pecados. Uma só coisa me aflige: o temor de que me não tenhais ainda perdoado. Mas as vossas promessas de perdoar a quem se arrepende, a pobreza a que vos vejo reduzido por meu amor, a vossa voz que me convida a amar-vos, as lágrimas, o sangue que derramastes por mim, as dores, as ignomínias, a morte cruel que sofrestes para a minha salvação, tudo isso me consola e me faz esperar com segurança o meu perdão. E se ainda me não perdoastes, dizei-me o que tenho a fazer. Quereis me arrependa de minhas iniqüidades, oh! arrependo-me de todo o coração de vos haver ofendido, meu Jesus! Quereis que vos ame? amo-vos mais do que a mim mesmo. Quereis que renuncie e tudo? oh! sim, renuncio a tudo e dou-me todo a vós. Sei que me aceitais; sem isso, não teria nem arrependimento, nem amor, nem desejo de dar-me a vós. Dou-me pois a vós, ó meu Deus, e vós me recebeis; amo-vos e vós me amais. Não permitais que esse nosso mútuo amor cesse jamais de nos unir.
Minha Mãe, Maria, obtende-me a graça de amar sempre a Jesus e de ser sempre amado por Jesus.


  Santo Afonso Maria de Ligório