Do recreio e do riso

AS REGRAS DE CORTESIA
SEGUNDA PARTE
Da cortesia nas ações comuns e ordinárias

CAPÍTULO V

Das Diversões
ARTIGO I

Do recreio e do riso

A boa educação e a honestidade pedem que se tome todos os dias algum recreio depois das refeições, com as pessoas com as quais se mora e com as quais se tomou a refeição; não é de boa educação afastar-se logo depois de sair da mesa.

O recreio se passa ordinariamente na conversa amena e em contar histórias gostosas e agradáveis que dão ocasião para rir e que divertem as pessoas.

Contudo, deve-se tomar cuidado para que esse tipo de conversa não tenha nada de rasteiro e denote uma educação deficiente, mas que seja elevada pelo modo de se expressar, que dá o brilho, o lustre e a graça de sua simplicidade.

A sabedoria divina diz que há um tempo de rir e este é propriamente o tempo que segue a refeição, pois além de ninguém poder aplicar-se a ocupações sérias logo depois das refeições, ficar alegre e livre no tempo que as segue imediatamente é algo que ajuda muito a digestão dos alimentos.

Nunca é permitido divertir-se à custa dos outros, o respeito que se deve ter pelo próximo exige que ninguém se alegre com nada que pudesse causar mal-estar a quem quer que seja.

Há principalmente três coisas de que nunca se deve rir. As que se referem à religião, as palavras ou as ações desonestas, a imperfeições dos outros e algum acidente infeliz que lhes tenha acontecido.

Quanto às coisas referentes à religião, haveria libertinagem e impiedade fazer dela objeto de riso e diversão. Um cristão deve, em todas as ocasiões dar sinais de estima e veneração para com tudo o que se refere ao culto de Deus; por isso, deve-se evitar cuidadosamente apresentar como ridículas as palavras da Sagrada Escritura, como acontece às vezes.

Nunca se deve ter essas Palavras na boca que não fosse por um sentimento de espírito cristão e para se animar à prática do bem e da virtude.

A boa educação requer que se tenha tão grande horror a tudo o que por pouco se aproxima da impureza, e que bem longe de permitir que as pessoas se divirtam com isso, ela nem permite sequer que se

manifeste gostar de nada que a atinge.

Os que riem de coisas dessa natureza manifestam que vivem mais segundo o corpo do que segundo o espírito, e que têm o coração completamente corrompido.

No que se refere às imperfeições dos outros, ou são naturais, ou são viciosas. Se forem naturais, é indigno de um homem de bom senso e de boa conduta, fazer delas objeto de risada e se divertir com elas,

porque quem as tem, não é sua causa e não depende dele não as ter, e porque não há pessoa alguma a quem não poderia acontecer a mesma coisa. Se forem imperfeições viciosas e nas quais de encontra motivo de diversão, isto seria completamente contra a caridade e contra o espírito cristão que inspira antes ter

compaixão por elas e incita a ajudar os outros a se corrigir delas, do que fazer delas um assunto de divertimento.

Não é menos contra a boa educação rir e se divertir de algum acidente desagradável que tivesse acontecido a alguém, pois isto manifestaria claramente que se sente prazer, quando a caridade e a honestidade requerem que se participe do que causa desgosto aos

outros como do que lhes causa prazer.

É uma falta de cortesia rir depois de ter dito um chiste engraçado e ficar olhando os presentes para ver se eles riem pelo que se disse, porque isso manifesta que se acredita ter falado maravilhas. Também não se deve rir quando alguém diz alguma coisa inconveniente ou fora de propósito. Rir de tudo o que se vê e se ouve é dar mostras de insensatez.

Ninguém se deve tomar a liberdade de rir a toda hora e em toda ocasião. Por exemplo, não se deve rir enquanto se fala, ou quando se tem motivo de ter dó. A cortesia não o permite também em certas ocasiões em que pelo menos se deve parecer sério, como quando faleceu algum parente do qual se ficou herdeiro, porque isto manifestaria que a pessoa se alegra pela morte dele.

A honestidade não quer, pois, que se ria sem ter um motivo razoável para isso; e prescreve também regras acerca da maneira de rir e nunca permite que se ria às gargalhadas, e menos ainda que se ria de maneira debochada e tão pouco honesta que se perca a

respiração, e se façam gestos indecentes. Somente pessoas de pouco juízo e pouca educação são capazes disso: porque é próprio do insensato, diz o Eclesiástico, erguer a voz ao rir, enquanto o sábio apenas sorri baixinho.

   São João Batista de La Salle (1651-1719)