SEGUNDA PARTE
Da cortesia nas ações comuns e ordinárias
CAPÍTULO VII
Dos entretenimentos e da conversa
ARTIGO I
Das condições que a Cortesia exige para acompanharem nossas palavras
Seção III (§ 3)
Das faltas que se podem cometer contra a Civilidade, ao falar contra a caridade que se deve ter com o próximo
A civilidade é tão exata a respeito do que se refere ao próximo, que não permite que se o choque por mínimo que seja. Por isso não permite a liberdade de falar mal a ninguém. Esta também é uma coisa que São Tiago adverte aos primeiros cristãos que é contra
a Lei de Deus, ao dizer que falar mal de seu irmão é falar mal da Lei. Portanto, não é correto sempre encontrar alguma coisa a censurar no comportamento dos outros; e se alguém não quiser falar bem, deve calar-se. O livro de sabedoria (bíblia) manda que, quando alguém fala mal de outra pessoa, se tapam os ouvidos dela com espinhos: quer mesmo que nos afastemos tanto da maledicência até não querermos escutar sequer uma língua
maldizente.
Ele não quer que se conte o que um outro disse dele: e aconselha a
tomar muito cuidado para não ter a reputação de fofoca, pois ele diz que o semeador de fofoca será odiado por todo o mundo.
Portanto, conforme o conselho do Sábio, é preciso ser educado quando se ouve uma palavra contra seu próximo e fazê-la morrer dentro de si.
Quando se ouvir falar mal de alguém, a cortesia requer que se escusem os defeitos e que se faça alguma coisa para dizer dele alguma coisa boa; que se interprete para o bem e que se estime alguma ação que tiver feito. Este é o meio de atrair a afeição dos outros e de se tornar agradável a todos.
É muito mal educado falar em detrimento de alguma pessoa ausente diante de outra que tivesse os mesmos defeitos, por exemplo, dizer diante de alguém com cabeça pequena, que ela é de cabeça pequena; ou, que é um coxo, diante de um coxo. Palavras desse tipo ofendem os presentes como os ausentes, mas ainda
menos educado é fazer a alguém censuras por um defeito natural: isto é algo de um espírito mal educado.
Também é muito descortês usar a pessoa com quem se fala como termo de comparação para mostrar alguma imperfeição e alguma desgraça que aconteceu a uma outra, como, por exemplo, dizer: Este homem está tão bêbado como
você o estava naquele dia; fulano apanhou um soco ou um tabefe como aquele que você
recebeu faz algum tempo; fulano caiu numa poça de barro como aquela em que você caiu outro dia; fulano tem o cabelo ruivo como você. Falar assim é fazer uma grande injúria à pessoa a quem se fala. também não se deve falar dos defeitos visíveis como os que aparecem no rosto; e nunca se deve perguntar de onde vieram.
Até é uma ofensa atribuir inconsideradamente uma ação fora de propósito ou indiscreta ou deselegante à pessoa a quem se fala; em vez de falar de tal modo, não se deve aplicar à pessoa, como, por
exemplo: Se você disser alguma coisa deselegante, vão lhe bater nos ouvidos; em vez de usar a expressão: há gente que, quando se lhes diz alguma coisa deselegante, lhe batem nos ouvidos.
Também é uma grande falta de cortesia bem como uma falta de caridade para com o próximo, recordar a alguém certas circunstâncias que não são positivas, ou dizer coisas que podem causar algum vexame, ou provocar confusão à pessoa a quem se fala, como dizer cruamente a uma pessoa: Faz algum tempo,
você caiu numa bruta barbaridade; há alguns dias você recebeu uma enorme afronta. Ou se ao falar a uma pessoa que pode parecer jovem, dizer que há muito tempo a conhece; ou a uma mulher, que tem cara feia.
Uma das coisas mais contrárias à boa educação bem como contra a caridade, são as injúrias. É também o que Nosso Senhor condena muito expressamente no Evangelho; elas nunca se devem encontrar na boca de um cristão,
mesmo porque são muito descorteses numa
pessoa que tem um pouco de educação. Também nunca se deve fazer uma afronta a quem quer que seja: não é permitido fazer ou dizer nada que possa dar alguma ocasião a ela.
Outro defeito, não menos contrário à honestidade e ao respeito que se deve ter para com o próximo é a zombaria que se fazem ridicularizando alguém por algum vício ou defeito que tem, ou
imitando-lhe os gestos: pois não há muita diferença entre zombar desta maneira e dizer injúrias, já que por uma injúria se ataca grosseiramente uma pessoa sem qualquer ponto positivo.
Esta espécie de zombaria é absolutamente indigna de uma pessoa de boa família: ela fere a honestidade e ofende o próximo. Por isso nunca é permitido fazer zombarias que atacam as pessoas vivas
ou falecidas.
Se não é permitido zombar de uma pessoa por algum vício ou defeito que tem, então é ainda menos permitido fazê-lo por defeitos naturais ou involuntários. É uma covardia e uma baixeza de
espírito fazê-lo; por exemplo, zombar de alguém porque é vesgo ou coxo ou corcunda. Porque quem tem esse defeito natural não é sua causa. Mas é totalmente descortês zombar de alguém por alguma desgraça ou por algum infortúnio que lhe tivesse acontecido; ousar
semelhante insulto por causa de sua desgraça, seria ofender diretamente a pessoa.
Contudo, se alguém for ridicularizado por seus defeitos, deve
tomá-lo numa boa e fazer com que não manifeste exteriormente que está ofendido; porque é regra de cortesia e sinal de piedade numa pessoa, não tomar com pesar tudo o que se diz dela, por mais
desagradável, chocante ou injurioso que possa ser.
Há uma outra espécie de zombaria que é permitida e que, longe de ser contrária às regras da boa educação e cortesia, embeleza as palavras e provoca honra à pessoa que a usa. Esta zombaria consiste em palavras alegres e cheias de espírito, que expressam
alguma coisa agradável sem ferir ninguém, nem a boa educação. Esta zombaria é muito inocente e pode contribuir muito a tornar a conversa agradável.
Contudo, deve-se tomar cuidado para que ela não seja freqüente demais e que se saiba dar-lhe o devido torneio. Por isso, quando se está de cabeça naturalmente pesada, deve-se evitá-la completamente, do contrário se ofereceria ocasião de ser ridicularizado quem a usa, e esta zombaria tão ordinária, baixa e mal recebida não teria o objetivo que deve ter, isto é, divertir os outros e fazer receber melhor o que se deve para os alegrar.
Para gracejar desta maneira não se deve tomar o jeito de brincalhão, e rir de tudo sem motivo, nem dizer algumas alfinetadas baixas e reles; mas é preciso que o que se diz tenha algo de brilhante e elevado e que tenha relação com a qualidade das pessoas que falam e que escutam e que
seja dito no momento propício.
São João Batista de La Salle (1651-1719)
São João Batista de La Salle (1651-1719)