Dos erros que se podem cometer contra a Cortesia, ao falar contra a Lei de Deus

AS REGRAS DE CORTESIA


SEGUNDA PARTE
Da cortesia nas ações comuns e ordinárias


CAPÍTULO VII

Dos entretenimentos e da conversa

ARTIGO I

Das condições que a Cortesia exige para acompanharem nossas palavras
Seção II (§ 2)

Dos erros que se podem cometer contra a Cortesia,

ao falar contra a Lei de Deus

Pessoas há que se vangloriam de aparecer como sem religião em suas palavras, que misturando palavras da Sagrada Escritura com coisas profanas, quer rindo e se divertindo com coisas santas e com as práticas de religião, quer gloriando-se de algum pecado e, por

vezes até de ações infames que cometeram. É propriamente deles que no livro de sabedoria(da biblia) diz que suas palavras são insuportáveis, porque fazem uma brincadeira e um divertimento com o pecado. Seu comportamento também é contra a educação.

As pragas e blasfêmias também são as maiores faltas que se possam cometer contra as leis da cortesia; por isso, nas reuniões de pessoas praguentas se presta menos consideração ao praguejador do que a um carreteiro. Ele inspira tanto horror que o Eclesiástico, que aliás expõe de maneira admirável o que está em conformidade com as regras da cortesia, diz que as palavras daquele que pragueja muitas vezes faz ficarem de pé os cabelos na cabeça e a tais palavras

horríveis é preciso tapar os ouvidos. Para incitar aos que praguejam a se desacostumarem, acrescenta até que a praga não sairá de sua casa, mas sempre estará cheia de dor e sofrimento. Portanto, segundo o conselho do livro de sabedoria, é preciso tomar cuidado

para não ter constantemente o nome de Deus na boca e para não misturar o nome dos santos na conversação, mesmo que seja sem utilidade e sem má intenção, mas somente por costume; pois, não se deve pronunciar os nomes de Deus e dos santos com irreverência e sem motivo justo. Nunca é de boa educação misturar na conversa ordinária, palavras como: Nossa Senhora! Ai meu Deus! nem sequer são corteses certas pragas que não significam nada, como: Pardi, Mordi, Morbleu, Jarni, etc… Esta sorte de palavras nunca devem estar na boca de uma pessoa de boa família; e quando se

pronunciam algumas desta natureza diante das pessoas a quem se deve ter certa consideração, perde-se o respeito a que têm direito. De acordo com a opinião do livro de sabedoria, ninguém deve se escusar por praguejar sem causar dano a alguém; pois ele diz que não é uma escusa que justifica diante de Deus.
Portanto, conforme o conselho de Jesus Cristo no Evangelho, é preciso contentar-se com dizer: isto é, ou, isto não é. E quando se quer afirmar com segurança uma coisa, basta usar uma destas fórmulas de falar: "Com toda certeza, meu Senhor, isto e` verdade", sem mais nada.

Não se deve ter menos horror às palavras desonestas do que ao praguejar. Elas também não são menos contrárias à civilidade e muitas vezes mais perigosas. São Paulo, que quer que os cristãos de seu tempo se comportem em todas as ocasiões com bons modos, os adverte em várias passagens de suas cartas, que tomem especial cuidado para que de suas bocas nunca saia alguma palavra desonesta, e ordena-lhes expressamente que a fornicação nem sequer seja nomeada entre eles. Também proferir palavras sujas é

falta ao respeito e nunca se deve dizer uma palavra um tanto livre a esse respeito, sob pretexto de alegria e de bom humor, mesmo que fosse para divertir um grupo de pessoas. Porque são Paulo diz que, se ao falar quisermos tornar-nos agradáveis aos que nos escutam,

devemos dizer alguma coisa que edifique. Nesta matéria nem o equívoco é permitido; ele choca a civilidade bem como a honestidade. O mesmo acontece com todas as palavras que deixam ou podem deixar a menor idéia ou imagem indecente.

Portanto, quando nos encontramos numa reunião de algumas pessoas que proferem palavras um pouco livres demais, e que ferem, mesmo só um pouco, o pudor, é preciso evitar o riso; se possível, fazer como quem não ouviu nada e ao mesmo tempo procurar mudança de conversa. Se isto é impossível, pode-se

manifestar, por uma atitude séria e um profundo silêncio, que este tipo de conversa nos desagrada muito.

Também se pode dizer que uma pessoa, por este tipo de conversa, manifesta o que ela é: pois a boca fala da abundância do coração, diz Jesus Cristo.

Desta maneira, proferir palavras sujas que ofendem a honestidade, é querer passar por impuro e libertino.


   São João Batista de La Salle (1651-1719)