SEGUNDA PARTE
Da cortesia nas ações comuns e ordinárias
CAPÍTULO VII
Dos entretenimentos e da conversa
ARTIGO I
Das condições que a Cortesia exige para acompanharem nossas palavras
Seção IV (§ 4)
Das faltas que se cometem contra a Civilidade
ao falar inconsiderada, leviana ou inutilmente
Falar inconsideradamente é falar sem discrição, sem modos e sem prestar atenção ao que se tem a dizer. Para não cair neste defeito, o Sábio nos adverte estarmos muito atentos a nossas palavras, de medo, diz ele, de não nos desonrarmos a alma.
Com efeito, não se estima uma pessoa que fala indiscretamente e por isso devemos tomar muito cuidado, conforme o conselho do mesmo Sábio, para não sermos precipitados na língua, pois a razão por que muitas vezes se fala fora de propósito e sem educação
é porque se dizem as coisas sem ter pensado seriamente nelas. O resultado é que o mesmo Sábio, ao saber dos maus efeitos deste vício, diz a Deus que não o abandone à leviandade indiscreta de sua língua e lhe suplica, em nome do poder e da bondade que Deus
lhe tem, como pai e dono de sua vida.
Portanto, para falar com discrição e prudência, é preciso falar somente depois de ter pensado bem no que se tem a dizer. Não se deve dizer tudo o que se pensa, mas comportar-se em muitas coisas, de acordo com o conselho do Sábio,
como se o ignorasse.
Quando se tem conhecimento de alguma coisa que se queira dizer ou que alguém diga, pode-se, diz o mesmo Sábio, falar ou
responder na hora certa, do contrário deve-se colocar a mão sobre a boca. Isto é, deve-se calar, com receio de ser surpreendido por uma palavra indiscreta ou sair envergonhado.
Para falar com prudência, deve-se também observar o momento propício para falar ou para calar; porque o Sábio diz que é ser muito imprudente e leviano não observar o momento e falar quando
somente a vontade de falar nos leva a isso.
De acordo com São Paulo, todas as palavras que dizemos, devem ser acompanhadas pela graça e temperadas pelo sal de tal maneira que se saiba por que e como as dizemos.
Por fim, segundo o conselho do Sábio, precisamos informar-nos antes de falar e assim nunca falar de uma coisa que não conhecemos bem, e dizer o que temos a dizer com tanta sabedoria e honestidade que nos tornemos amáveis em nossas palavras.
Quando alguém diz ou faz alguma coisa que não se deve dizer, se percebemos que a pessoa que falou o fez por surpresa e se retrata com humildade, refletindo sobre si mesma e sobre o que acaba de dizer, não se deve mostrar que se o percebeu; e, se quem o
disse ou fez pede desculpas, é prudente e caridoso interpretar favoravelmente a coisa e ficar bem longe de zombar de quem afirmou alguma coisa que parece pouco razoável, e menos ainda tratá-lo com desprezo.
Também pode ser verdade que não se captou bem o pensamento dessa pessoa. Por fim, nunca é permitido a uma pessoa educada provocar confusão em quem quer que seja.
Quando alguém profere injúrias, também é prudente não responder e tentar defender-se. Muito melhor é aceitar tudo numa boa; e se um outro quer nos defender, devemos manifestar que não ficamos
ofendidos em nada pelo que se disse. Com efeito, é próprio de uma pessoa educada não se ofender por nada.
Para nos dar a entender em poucas palavra, quem são os que falam com educação e prudência, e quem são os que fala imprudentemente, o Sábio diz admiravelmente: que o coração dos insensatos está na boca e a boca dos sábios está no seu coração. Isto é, que os que não têm muito juízo dão a conhecer a todo o mundo, pela multidão e irreflexão de suas palavras, tudo o que têm no coração; mas que os que têm juízo e educação são tão reservados no falar, que só falam o querem dizer bem e o que é conveniente que se conheça.
Quando estamos com pessoas que têm mais idade do que nós ou muito mais idosas, a cortesia quer que se fale pouco e se escute muito. O mesmo devemos
fazer quando estamos com pessoas que têm responsabilidades, este, aliás, é o conselho muito pertinente que dá o Sábio. Também quando uma criança está com pessoas às quais deve respeito, é
cortês somente falar quando interrogada.
É preciso evitar a todo custo comunicar seus segredos a todo o mundo. O Sábio também nos dá este conselho: seria imprudente fazê-lo; mas é preciso conhecer muito bem a pessoas a quem se quer confiar um segredo, e estar bem seguro de que ela é capaz de
um segredo e fiel em guardá-lo.
Os que somente têm bagatelas e asneiras para contar e os que fazem grandes prelúdios e não podem dar aos outros uma chance de falar deveriam permanecer calados; pois é muito melhor passar por
silencioso do que entreter as pessoas de um grupo com asneiras e parvoíces ou ter sempre alguma coisa a dizer.
São João Batista de La Salle (1651-1719)
São João Batista de La Salle (1651-1719)