Do canto

AS REGRAS DE CORTESIA
SEGUNDA PARTE
Da cortesia nas ações comuns e ordinárias
CAPÍTULO V

Das Diversões
 
ARTIGO IV

Do canto

O canto é uma diversão que não somente é permitida, mas e muito honesta e que pode contribuir muito para recriar o espírito de maneira agradável e inocente ao mesmo tempo.

Contudo, a boa educação bem como a religião querem que um cristão não se entregue a cantar toda sorte de canções e que tome cuidado especialmente para não cantar canções desonestas, nem alguma cujo texto fosse livre demais ou ambíguo. Numa palavra, é

muito inconveniente para um cristão cantar melodias que levam à impiedade ou em que se exalta o excesso na comida ou cujas expressões e cujos termos dão a idéia de prestar homenagem e que revelam que se encontra prazer nos excessos do vinho; pois além de

ser muito sem graça usar tais palavras, elas poderiam contribuir muito a levar a tais ações ruins, mesmo que atualmente não se as esteja fazendo, visto que as canções muito mais facilmente inspiram ao espírito o que elas contêm, do que as palavras em si.

São Paulo nos indica precisamente em dois textos diferentes de suas cartas, que os cristãos devem cantar Salmos, hinos e cânticos espirituais, e devem cantá-los do fundo de seus corações e com

afeição, porque contêm os louvores de Deus. Com efeito, estes são os cantos que se deveriam ouvir nas casas dos cristãos em que o vício e tudo o que leva a ele não é menos contrário à boa educação do que contra as regras do Evangelho e em que não se deve ouvir qualquer canção que não seja de louvor a Deus e que não leve à prática do bem e ao exercício da virtude.

Esta também era a prática dos antigos Patriarcas que se compunham cânticos quer para louvar a Deus quer para agradecer algum benefício recebido dele.

Davi, que compôs um grande número deles, os compôs em louvor a Deus. A Igreja que se os apropriou, os canta todos os dias e os coloca na boca dos cristãos nos dias em que se reúnem solenemente para prestar seus deveres a Deus, parece convidar a todos a cantá-los também e repeti-los em particular e aos pais e às mães

a ensiná-los a seus filhos.

Como estes santos cânticos foram traduzidos para o vernáculo e receberam uma melodia, qualquer pessoa tem facilidade para os poder cantar, bem como para os ouvir e se encher o espírito e o coração com santas aspirações de que estão repletos. Louvar e

bendizer muitas vezes a Deus de coração também deveria ser uma grande satisfação e uma verdadeira diversão para os cristãos.

O que a cortesia pede dos cantores ou tocadores de instrumentos é que nunca demonstrem e nunca dêem sinais e nunca falem disso para conquistar a estima por esse meio; mas se vier ao conhecimento do público e se em certas ocasiões uma pessoa a quem se deve respeito ou deferência, pedir se que toque ou

cante uma canção, quer para mostrar o que se sabe, quer para divertir as pessoas reunidas, pode-se gentilmente pedir escusas de o fazer e, em geral, convém fazê-lo; mas, se essa pessoa insiste e insta, seria não conhecer o mundo hesitar em cantar ou em tocar o instrumento que se pede tocar. Pois, se acontecesse que não se cantasse perfeitamente bem ou não se fosse hábil em tocar o instrumento, as pessoas presentes depois teriam motivo de dizer que não valeu a pena fazer-se de rogado; em vez disso, aquiescer de

maneira delicada e sem muita demora, deixa a salvo de todas as censuras ou pelo menos não oferece ocasião para elas.

Quando alguém se vê obrigado assim a cantar num grupo, deve evitar o tossir e cuspir e louvar a si mesmo: por exemplo dizer: "Esta é uma parte muito bonita, e este outro também mais bonito ainda, cuidado com esta descida, etc". Isto manifesta demais a vaidade e a estima própria, e é sinal de que se procura aumentálas.

Não é cortês fazer certos gestos que mostram prazer pessoal; o mesmo se deve fazer também quando alguém toca um instrumento.

Quando se é assim convidado a cantar ou a tocar algum instrumento, não se deve fazer nem um nem outro por longo tempo, porque se deve evitar o tornar-se enfadonho; antes se deve acabar mais cedo para não dar a ninguém motivo de dizer ou de pensar

que já basta.

Seria uma falta de educação dizê-lo, caso a pessoa que canta merece alguma consideração; também é grave falta interromper uma pessoa que está cantando.

Deve-se também tomar muito cuidado de nunca cantar só e entre os dentes. Isto é muito descortês em qualquer ocasião que seja. Não o é menos contrafazer uma pessoa que se ouviu cantar, quer porque canta pelo nariz, quer ela tenha inflexões de voz ou maneiras

que são inconvenientes e desagradáveis; isto é jeito de palhaço e farsante de teatro. Também assenta muito mal ter maneiras de cantar que são grosseiras, afetadas ou estranhas.

O modo de cantar bem e agradavelmente é fazê-lo de maneira absolutamente natural.

 São João Batista de La Salle