Das diversões não permitidas

AS REGRAS DE CORTESIA
SEGUNDA PARTE
Da cortesia nas ações comuns e ordinárias

CAPÍTULO V

Das Diversões
 
ARTIGO V

Das diversões não permitidas

Há outros divertimentos dos quais não se vai tratar aqui em mais pormenores porque de modo algum são permitidos a um cristão, nem pelas leis da religião, nem pelas regras de civilidade.

Alguns deles são, em geral, próprios dos ricos: são os bailes, as danças e as comédias. Há outros que são mais freqüentes entre os operários e os pobres, tais como os espetáculos de opereta, de palhaços, equilibristas nas cordas, marionetes, etc.

A respeito dos bailes basta dizer que são reuniões cuj comportamento não é nem cristão nem honesto; elas se realizam de noite, porque parece que se tem a intenção de se esconder e passar nas trevas, para ter então mais liberdade, e para ali conhecer o crime. As pessoas em cuja casa se realizam têm a obrigação indispensável de abrir sua porta sem distinção a todo o mundo, o que faz com que suas casas se tornem como lugares de infâmia e bordéis, onde pais e mães expõem suas próprias filhas a toda sorte de rapazes, que têm toda liberdade de entrar nessas reuniões, também se permitem examinar todas essas pessoas que as freqüentam e apegar-se a aquelas garotas que mais lhes agradam; conversar com elas, levá-las a dançar, afagam-nas e tomam liberdades que os pais e as mães teriam vergonha de lhes permitir em suas casas particulares. E as meninas, pelo luxo e a vaidade com que aparecem em seus enfeites, pela pouca modéstia que se encontram em seus olhares e gestos, em toda sua pessoa, se prostituem aos olhos e aos desejos de todos os que entram nesses bailes e dão ocasião aos que são os mais moderados, a terem

sentimentos muito longe dos que o pudor e a honestidade cristão deveriam inspirar-lhes.

No que se refere às danças que se realizam em casas particulares com menos excesso, elas não são menos contra a boa educação do que as que se realizam com mais brilho nos bailes; porque, se um antigo pagão disse que ninguém dança quando está sóbrio, a

não ser que ficou louco, o que então o espírito cristão pode inspirar acerca deste divertimento, que no dizer de Santo Ambrósio, só é bom para excitar as paixões vergonhosas e em que o pudor perde todo seu brilho entre o ruído que se faz ao pular e ao se abandonar à

deboche. Este santo Padre diz que as mães que permitem a suas filhas dançarem são mães indecentes e adúlteras e não são mães castas e fiéis a seu esposo.

Estas devem ensinar a suas filhas a amar a virtude e não a dança, na qual, diz São Crisóstomo, o corpo é desonrado por atividades vergonhosas e indecentes, e a alma o é muito mais ainda, porque as danças são o jogo dos demônios, e os que com elas se divertem e

deleitam, são os ministros e os escravos dos demônios e se comportam como animais em vez de pessoas, porque se entregam a prazeres dos brutos.

Embora as comédias sejam consideradas no mundo como um divertimento honesto, elas não deixam de ser a vergonha e a confusão do cristianismo.

Com efeito, os que se entregam a esse emprego e dele fazem sua profissão são publicamente conhecidos por sua infâmia. Será que se pode gostar de uma profissão em que a pessoa que a exerce, se cobre de confusão?

Será que não é infame e vergonhosa esta arte, em que toda habilidade dos comediantes consiste em excitar em si mesmos e nos outros, certas paixões vergonhosas, das quais uma pessoa bem educada só pode ter horror? Quando nas comédias se canta,

ouvem-se apenas melodias próprias a fortificar essas paixões. Acaso poderia ter honestidade e boa educação nos adornos, na nudez e na liberdade dos e das comediantes? Acaso há em seus gestos, em suas palavras e atitudes alguma coisa que não seja indecente para um cristão não só de fazer mais até de ver?

Portanto, é inteiramente contra a boa educação fazer disto seu prazer e sua diversão.

Os teatros de operetas e palhaços, que geralmente são apresentadas em praça pública, são consideradas indecentes por todas as pessoas honestas; e ordinariamente somente os operários e os pobres são

os que as assistem. Parece até que o diabo as organiza para eles, para que, como não têm os meios de provar o veneno que oferecem para perder as almas nas comédias, eles possam facilmente saciar-se junto desses teatros públicos; e para esse fim emprega

palhaços formados por ele e, conforme a expressão de São Crisóstomo, os emprega para infectar todas as cidades a que vão. Assim que esses palhaços ridículos, diz o mesmo santo Padre, proferiram alguma blasfêmia ou algumas palavras desonestas, vê-se que os mais loucos explodem em risada, os aplaudem por coisas

pelas quais os deveriam lapidar.

Portanto, é um divertimento muito vergonhoso e um prazer detestável, conforme a expressão deste santo Padre, que se procura quem assiste a tais espetáculos e os que lá se encontram mostram ter o coração e o espírito bem rasteiro e muito pouco cristão.

Para um cristão também não assenta assistir a representações de marionetes em que nada de agradável e divertido apareceria se não se misturassem palavras impertinentes ou desonestas, com posturas e movimentos de todo indecentes. Por isso, uma pessoa correta só deve assistir a essa espécie de espetáculos com desprezo, e os pais e as mães nunca devem permitir a seus filhos que os assistam, e devem inspirar-lhes muito horror a eles, por serem contrários à

boa educação e à piedade cristã exigida deles.

A cortesia também não permite assistir aos espetáculos dos saltimbancos dançarinos em cordas que em todos os espetáculos expõem sua vida, como sua alma, para divertir os outros. Por isso não podem ser admirados nem olhados por uma pessoa razoável,

uma vez que eles fazem o que deve ser condenado por toda a gente que segue as simples luzes da sã razão.

   São João Batista de La Salle (1651-1719)