SEGUNDA PARTE
Da cortesia nas ações comuns e ordinárias
CAPÍTULO VII
Dos entretenimentos e da conversa

ARTIGO VI
Dos cumprimentos e das maneiras erradas de falar
Há duas maneiras de cumprimentar; na primeira expressamos uma certa paixão quer de satisfação para manifestar a alegria de que alguma coisa favorável aconteceu à pessoa que encontramos ou vamos visitar; quer de condolência, pela qual expressamos à pessoa a quem aconteceu alguma coisa infeliz, a dor que sentimos com isso; quer de agradecimento, ao manifestar nosso reconhecimento pelos benefícios de alguém recebidos, e a obrigação que lhe devemos protestando-lhe nossa afeição e fidelidade a serviço
dele; ou então, pode ser uma declaração de obediência que fazemos para com alguém e de nossa fidelidade a seu serviço. Algumas vezes também é o momento de nos queixar e para demonstrar nosso ressentimento por algum mal que nos foi feito. Estas maneiras de
cumprimentar devem ser feitas de maneira natural, sem afetação e sem que pareçam preparadas. Pois então a boca fala da abundância do coração e persuade muito melhor do que tudo o que se poderia dizer com cuidadosa preparação, que é menos natural, por isso
menos bem recebida.
Outra maneira de cumprimentar é o elogio. Este exige muito mais circunspeção e jeito do que a primeira, para persuadir que dizemos a verdade. Para tornar agradável este cumprimento, é preciso que a
pessoa que elogiamos esteja persuadida de que também nós o estamos dos méritos dela; então nosso cumprimento será sincero e obsequioso. Também é preciso tomar cuidado nesta sorte de cumprimentos para não exaltar as pessoas muito acima do que são e
não fazer grandes exageros que se destroem por si mesmos. Para que esta espécie de cumprimentos seja razoável, é preciso que haja sinceridade e verdade neles, de maneira que a retidão, a sabedoria e a moderação que sempre se devem encontrar neles, para que nem a modéstia do que cumprimenta, nem a de quem o recebe seja ferida. Por isso, quem os apresenta deve lembrar-se de que, embora se devam estimar muito os outros, deve-se elogiá-los pouco e com muita precaução e reserva, de acordo com o conselho do Sábio, que nos diz com razão, que não se deve elogiar ninguém antes da morte,
porque nos elogios sempre há algo a temer, tanto da parte de que o faz sem sinceridade, como da parte de quem o recebe porque
pode estimular sua vaidade. Por isso, estas maneiras de cumprimentar devem ser raras e só feitas com muita prudência e circunspeção.
Para serem bons os cumprimentos devem ser feitos sem elogios; e as cerimônias para serem agradáveis não devem afastar-se do natural; devem também ser curtos e se forem feitos a pessoa a quem se deve respeito, é preciso utilizar mais reverência do que
longos discursos.
Ao responder a um cumprimento, deve-se observar as mesmas regras; se forem feitos em razão de benefícios recebidos, deve-se minimizá-los, mas não de tal forma que pareçam ser mais nada, pois isto pareceria censurar a estima que deles tem aquele que
os recebeu. Também não se deve dizer que faríamos o mesmo serviço a qualquer outra pessoa. Porque isto seria manifestar à pessoa, a quem fizemos esse favor, que não temos grande consideração para com ela, uma vez que em favor dela não fizemos mais do que faríamos a qualquer outro.
Ao falar sempre se devem utilizar termos honestos, ordinários e inteligíveis e próprios do tema de que se fala e não termos particulares e rebuscados.
Deve-se particularmente evitar as expressões impróprias que não são francesas e que não correspondam à pureza da língua. Embora não seja correto usar no discurso termos e expressões muito
rebuscadas, é preciso evitar um certo francês
corrupto, que não poucas pessoas usam com freqüência por não prestarem bastante atenção a sua maneira de falar, por exemplo, seria muito mal dizer: Tire o cavalo da cocheira. Deve-se dizer: Faça sair este cavalo da
cocheira.
Ao contar alguma história ou ao prestar contas de uma missão, é preciso abster-se de certos termos ridículos e totalmente inúteis, como seria dizer: Isto disse ele; isto disse ela; ou: Isto; o homem, ele me disse assim, etc.
Falta de educação e até chocante é dizer a alguém: "Você faltou a sua palavra; você me enganou".
Convém expressar-se de outro modo que seja mais educado, por exemplo, dizendo: "Pelo jeito, meu senhor, sem dúvida, o senhor não se lembrou bem", ou "Quem sabe, o senhor não pode fazer aquilo pelo qual me fez esperar".
Também enorme falta de cortesia é dizer, depois que uma pessoa falou: "Se é verdade o que o senhor disse, então estamos mal"; ou "Se o que o senhor F. disse é verdade, não temos mais motivo de
nos admirar", etc.
É um desmentido honesto. Nunca se deve manifestar que se duvida do que uma pessoa disse. A cortesia quer que se diga: "Pelo que o senhor disse, estamos mal"; ou "O que o senhor F. disse, revela
que…", etc.
Outra maneira muito ruim de falar é dizer:
Você não está falando sério ao dizer isto. Também não é melhor dizer, como fazem alguns a modo de elogio:
Você não está fazendo troça ao me tratar assim. Este modo de falar é ofensivo, porque nunca se deve supor numa pessoa honesta que ela está fazendo troça: deve-se fazer uma outra construção do período, assim: Dizer isto seria fazer troça, etc.
Nunca é permitido falar a alguém de maneira imperiosa, a não ser que seja de condição muito inferior. Estas maneiras de falar, que cheiram a dominação, são insuportáveis e nunca podem ser usadas por uma pessoa que tem um pouquinho de educação. Por isso, em vez de usar estes modos de falar que manifestam um mandamento, como: Vai! Vem! Faz isto! É melhor usar circunlóquios, dizendo,
por exemplo: Você não gostaria de ir? Não sei se você vai achar bem. Permita-me, senhor, que lhe peça. Será que eu poderia esperar este benefício? etc. com pessoas de condição muito inferior pode-se dizer educadamente: Você poderia me dar este prazer? Eu
ficaria muito agradecido, se você se desse a pena de,
etc. Todas estas são maneiras de falar exigidas pela honestidade, com aqueles de cujos serviços temos precisão.
São João Batista de La Salle (1651-1719)
São João Batista de La Salle (1651-1719)