Consideração VI
Afetos e Súplicas.
Oh! quão feliz seria se doravante eu pudesse sempre dizer com a sagrada Esposa: O meu Deus bem-amado se deu todo a mim; é justo que me dê todo a meu Deus! Eu deveria repetir sem cessar com o profetarei: Que há para mim no céu, e, fora de ti, que desejei eu sobre a terra?... ó Deus, que és o Deus do meu coração, e a minha herança para sempre! Sim, ó caro Infante, meu divino Redentor, já que descestes do céu para vos dar todo a mim, que procurarei eu ainda sobre a terra e no céu senão a vós, que sois meu soberano bem, meu único tesouro e o paraíso das almas? — Sêde pois o único senhor do meu coração, possuío inteiramente. Só a vós obedeça o meu coração e procure agradar. Só a vós ame a minha alma, e sêde vós só a minha partilha! Corram outros atrás dos bens e fortunas do mundo; procurem neles a sua alegria, se é que se pode encontrar verdadeira alegria fora de vós; quanto a mim, quero que só vós sejais toda a minha fortuna, minha riqueza, minha paz e minha esperança nesta vida e na eternidade! Eis o meu coração, eu vo-lo dou inteiramente; ele já não é meu mas vosso. Entrando no mundo oferecestes e destes a vosso Pai eterno toda a vossa vontade como nos fizestes saber por Davi: Na cabeceira do livro está escrito de mim que farei a vossa vontade; sim, meu Deus, eu o quero; assim hoje eu vos ofereço, meu divino Salvador, toda a minha vontade. Ela vos foi outrora rebelde e com ela vos ofendi; mas agora detesto do fundo do coração o mau uso que dela fiz, todas as faltas pelas quais tive a infelicidade de perder a vossa amizade, e vos consagro esta minha vontade sem reserva. Senhor, que quereis que eu faça? estou pronto a obedecer-vos. Disponde de mim e do que me pertence como vos aprouver; aceito tudo e a tudo me resigno. Sei que quereis o meu maior bem; nas vossas mãos recomendo o meu espírito. Ajudai minha alma por vossa misericórdia, conservai-a, fazei seja ela sempre vossa, e toda vossa, pois que a resgatastes com vosso sangue: Vós me remistes, Senhor, Deus de verdade.
Ó Maria, Virgem santa, feliz sois vós! Fostes sempre toda de Deus, toda bela, toda pura e sem mancha. Só vós fostes, entre todas as almas, chamada pelo divino Esposo, a sua columba, a sua perfeita. Vós sois o jardim fechado à toda a culpa, a toda a imperfeição, e cheio de flores e frutos de todas as virtudes. Ah! minha Rainha e minha Mãe, que sois tão bela aos olhos de Deus, tende piedade de minha alma, tão deformizada por seus pecados. Se no passado não pertenci a Deus, agora quero ser dele e todo dele. Quero empregar o resto de minha vida só em amar o meu Redentor, que tanto me tem amado: basta dizer que Ele se deu todo a mim. Ó minha esperança, obtende-me a força de lhe ser grato e fiel até a morte. Amém. Assim o espero, assim seja.
Santo Afonso Maria de Ligorio